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“O FACTO DE SE TER CRIADO ABORDAGEM PRÉ-HOSPITALAR DO DOENTE, SALVA IMENSAS VIDAS”

Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa foi uma das unidades hospitalares que recebeu uma viatura VMER

Foram entregues, a nível nacional, 22 novas viaturas VMER a 21 instituições hospitalares, resultado de uma parceria entre o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) e os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS), integrada no plano de revitalização do INEM traçado pelo Ministério da Saúde.

Sustituindo a anterior viatura, com mais de 700 mil quilómetros, a nova Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER) atribuída ao Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa (CHTS) entrou, no dia 14 de dezembro do ano passado, em funções.

A VMER é um veículo de intervenção pré-hospitalar destinado ao transporte rápido de uma equipa médica ao local onde se encontra o doente. Tem como funções a estabilização pré-hospitalar e o acompanhamento médico durante o transporte de vítimas de acidente ou doença súbita em situações de emergência.

A avaliar pelos dados de 2017, em que a VMER – Vale do Sousa deu resposta a 2.750 situações de emergência médica, a necessidade deste equipamento era premente neste Centro Hospitalar, tendo em conta ainda a dimensão do território coberto pelo CHTS.

“Este Centro Hospitalar é dos que cobre uma das maiores áreas geográficas a nível nacional e naturalmente que isso se reflete no trabalho da VMER. Temos uma cobertura geográfica de 12 concelhos, 4 distritos, e com alguma frequência, quase diária, a VMER tem que se deslocar para socorrer pessoas que estão a 40, 50 quilómetros do hospital”, explicou a diretora da urgência do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa, Carla Freitas.

Com uma média de saída de sete vezes diárias (ultrapassando a média nacional de seis), a equipa da VMER é composta por dois elementos, um médico e um enfermeiro, que tem que acorrer a todo o tipo de situações.

“Somos ativados, como todas as viaturas de emergência, pelo CODU e, portanto, sempre que ativa a equipa sai para o terreno procurando dar uma rápida e eficaz resposta à situação”, afirma a médica cirurgiã, ainda que, muitas vezes, a equipa esteja dependente de vários fatores alheios a si para obter sucesso.

“São sempre situações de muito stresse, principalmente porque muitas vezes a equipa, por muita informação que seja dada pelo CODU, nem sempre essa informação é transmitida corretamente àquela entidade por quem relata a ocorrência e a equipa não sabe exatamente para o que vai”, explica Carla Freitas.

“para trabalhar na emergência médica é preciso ter uma personalidade muito particular”

O cenário encontrado nos locais da emergência representa também um factor que vai influenciar o trabalho destes profissionais. Por exemplo, explica a diretora, “a equipa pode ir socorrer uma criança que se engasgou e tem uma dificuldade respiratória com compromisso da via aérea. É das piores coisas que pode acontecer à equipa, pois encontram uns pais que estão em pânico. Uma situação que se for abordada rapidamente se resolve sem sequela nenhuma, mas que quando temos muita gente à volta perturba imenso o trabalho e dificulta-nos as atuações e põem em causa a vida da criança”.

“Outra situação que é muito angustiante e bastante difícil para quem está no terreno são os acidentes”, continua a diretora. “Isto porque a multidão que fica a assistir perturba o trabalho, dificulta a chegada às vítimas. Se for um acidente com várias vítimas é preciso triar e perceber as prioridades em cada vítima, perceber qual o grau de urgência em cada uma. E isso quando há 20 ou 30 pessoas à volta em pânico não é fácil”.

São situações graves e de risco de vida aquelas que, habitualmente, a VMER encontra. O trabalho depois faz-se a nível interno, com a equipa de emergência que, dentro de portas, encaminha o doente ou a vítima para as salas de atendimento , seja a sala de trauma, seja a de emergência.

Apesar da paixão pelo que faz no serviço em que está, a diretora da urgência não esconde que  as situações que aqueles profissionais vivem são tanto mais angustiantes quanto mais jovens foram os doentes.

a grande maioria dos profissionais não ficam muitos anos a fazer VMER. De facto, é duro, é difícil, é angustiante, é stressante.

É por isso que Carla Freitas considera que as pessoas que trabalham nas viaturas de emergência médica, “seja aqui no hosptital seja noutra viatura, são pessoas muito especiais e por quem eu tenho a maior admiração”.

“Lembro-me de um tiroteiro aqui perto, num bairro, que fez duas vítimas. As pessoas não se afastavam, colocando os profissionais de saúde em risco de vida também. Já aconteceu por diversas vezes o profissional ter que colocar a vítima dentro da ambulância, antes de começar a fazer qualquer procedimento médico, o que não deveria ser o procedimento imedito, para ele próprio não correr risco de vida. Já aconteceu também terem que vir escoltados pela polícia. Portanto, para trabalhar na emergência médica é preciso ter uma personalidade muito particular, ser alguém que tenha, para além dos conhecimentos técnicos que a atividade exige, um grande espírito de abnegação, muito altruísta e que pense sempre primeiro nos outros, senão não vai”.

Uma realidade dura e difícil é aquilo que a equipa da VMER enfrenta todos os dias e, ainda que os profissionais estejam preparados para as situações e adversidades que possam encontrar, a diretora garante que “a grande maioria dos profissionais não ficam muitos anos a fazer VMER. De facto, é duro, é difícil, é angustiante, é stressante. Nós temos uma equipa que está sistemáticamente a ser renovada e todos os anos nós tempos elementos novos a entrar para a equipa para substituir aqueles que saem”.

Viagens que podem acabar com um acidente da viatura ou o local da ocorrência para onde vão que muitas vezes não é amistoso são apenas algumas das condicionantes emocionais que os profissionais enfretam.

“O facto de se ter criado abordagem pré-hospitalar do doente, salva imensas vidas”

As dificuldades que encontram na execução do seu trabalho são fruto,muitas vezes, de uma população desinformada e pouco ou nada orientada para colaborar com o profissional de saúde, com pressa de obter resultados, como se os médicos fizessem algum tipo de magia instantanea que curasse de imediato um doente.

“As pessoas não entendem e não aceitam que nós precisamos de algumas horas para fazer um diagnóstico e para propôr um tratamento. E mais dificil é quando estamos na rua, ou dentro da casa de uma pessoa, onde quase não nos conseguimos mexer, onde uma maca não passa, quanto mais todo o material que implica uma reanimação”, diz.

Apesar dos contratempos encontrados, o que é certo é que estas viatura salvam vidas todos os dias. “O facto de se ter criado abordagem pré-hospitalar do doente, salva imensas vidas”. Para além disso, Carla Freitas considera que houve uma grande evolução também noutros dispositivos de emergência, como o INEM  e os Bombeiros.

“Não nos podemos esquecer das SIV’s e do INEM, que todos os dias salvam vidas. Os corpos de bombeiros têm feito também muita formação. Também nos bombeiros nós notamos uma diferença muito grande de abordagem em relação ao que era no século passado. Há aqui uma evolução enorme e que nos permitiu diminuir e muito a mortalidade pré-hospitalar e mesmo intra-hospitalar, uma vez que os doentes graves chegam cá já muito mais estáveis do que chegavam no início da década de 90”, conclui a diretora.