penafielmagazine@gmail.com

Notícias em Penafiel
 

O DESPORTO NACIONAL ENSINA-NOS QUE O RACISMO É ESTUPIDEZ

O racismo é uma estupidez, e merece a mais viva condenação.

Num contexto social e político em que os fenómenos identitários ameaçam levar um debate, que até poderia ser muito pertinente, sobre as dinâmicas de integração social das minorias étnicas residentes em Portugal, para a normalização de preconceitos e «bitaites de taberna» reveladores do muito trabalho que ainda há a fazer num país que não devia esquecer-se dos muitos portugueses igualmente vítimas de discriminação um pouco por essa Europa fora.

O racismo não é só uma estupidez, mas um fenómeno incrivelmente hipócrita. Os mesmos que, por vezes, assumem posturas inenarráveis quanto a concidadãos seus de cores de pele diferentes, são os mesmos que, por ignorância ou simplesmente falta de formação cívica, não se apercebem que, por exemplo no desporto, a multiculturalidade já nos deu grandes alegrias. Senão vejamos:

-Onde estavam os racistas quando o também guineense Éder marcou o golo da final europeia ganha em 2016?

-Onde estavam os racistas quando Nélson Évora, atleta de origem cabo-verdiana que nasceu na Costa do Marfim, foi campeão mundial do triplo salto em 2007, campeão olímpico em Pequim no ano seguinte, ou campeão europeu há dois anos atrás?

-Onde estavam os racistas quando o nigeriano Francis Obikwelu trouxe para Portugal quatro títulos europeus de atletismo, duas medalhas em Mundiais, ou uma medalha olímpica?

-Onde estavam os racistas quando a luso-angolana Patrícia Mamona foi campeã europeia de triplo salto em 2016, no mesmo ano em que o também búlgaro Tsanko Arnaudov foi medalhado no lançamento do peso com as cores nacionais?

-Onde estavam os racistas quando Naide Gomes, nascida em São Tomé e Príncipe, arrecadou dois títulos mundiais e outras nove medalhas, em provas internacionais em que representou Portugal?

-Onde estavam os racistas quando Portugal se sagrou campeão europeu de futsal em 2018, com jogadores como o luso-angolano Nílson ou o luso-cabo-verdiano Pany Varela entre os convocados?

-Onde estavam, ainda este ano, os racistas, quando a seleção nacional de andebol fez um brilharete no Europeu, com atletas como os cubanos Alfredo Quintana, Daymaro Salina ou Alexis Borges, ou os luso-brasileiros André Gomes e Alexandre Cavalcanti?

Dou de barato, no entanto, aqueles que já não se lembram, talvez porque não eram nascidos, dos «heróis» lusitanos que, em 1966, levaram Portugal à melhor classificação de sempre num Campeonato do Mundo de futebol. Com efeito, os nomes dos moçambicanos Hilário, Coluna ou Eusébio ficarão para sempre ligados a um dos momentos mais gloriosos do desporto nacional.

Com efeito, por detrás da vontade que alguns manifestam de «mandar os pretos para a terra deles», a história do desporto português faz-se de momentos felizes protagonizados várias vezes por portugueses oriundos de várias partes do Mundo. Que tal como nós são portugueses de direito próprio, porque um português pode ser «branco», ou não.

Que o diga o Sport Lisboa e Benfica, que tem um desses «heróis» no Panteão Nacional, depois de ter “dado” ao clube duas Taças dos Campeões Europeus, 11 campeonatos e cinco Taças de Portugal.

Debater a forma como as minorias devem ou estão a ser integradas é importante. Garantir que esses cidadãos não só tenham os seus direitos preservados, mas que cumpram os seus deveres, é fundamental. Assumir que os extremismos existem de parte a parte é realista, e deve ser motivo de reflexão. Defender a nossa matriz civilizacional, percebendo de forma consciente que, um pouco por todo o Mundo, também há «brancos» vítimas de racismo, e locais onde existe ódio pela civilização ocidental, é algo que também deve ser tido em conta nestas reflexões.

Porém, criar em Portugal um ambiente propício a que um certo discurso de ódio e divisão «saia do armário» e destrua a possibilidade de união em torno de um projeto de país, é algo que não devemos permitir.

Até porque, e essa é a ironia suprema no meio de tudo isto, são os agora deslumbrados por este discurso os primeiros a sofrer com ele, caso ele cresça.

Post Tags
Share Post