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ANTÓNIO SORTE: “O SISTEMA NÃO ESTÁ PREPARADO PARA O ENSINO À DISTÂNCIA”

António Sorte é diretor do Agrupamento de Escolas Penafiel Sudeste, e tal como muitos dos seus colegas, tenta gerir o impacto da pandemia num dos setores de longe mais afetados pelo efeito transformador que este problema pode ter na vida da comunidade.

As exigências são descomunais, e a falta de preparação do sistema reflete-se na ausência, natural, de uma estrutura prévia que suporte um modelo de ensino à distância que se impõe, perante a perspetiva cada vez mais plausível de ausência de aulas presenciais durante o terceiro período. Na preocupação do diretor escolar, estão sobretudo os alunos mais carenciados, relativamente aos quais a ausência de acesso a computador e internet pode transformar-se em mais uma desvantagem socioeconómica, a somar-se a tantas outras.

No entanto, nem tudo são preocupações. Nesta entrevista concedida ao Penafiel Magazine, António Sorte elogia o esforço de adaptação da comunidade escolar, alunos, professores e pais/encarregados de educação, neste momento de transição abrupto e inesperado, e não esquece a proximidade mostrada pelo Ministério da Educação, câmara municipal e juntas de freguesia, na tentativa de encontrar as melhores soluções para os desafios que surgem.

 

A luta contra o covid-19 é tema incontornável do debate por estes dias, e constitui um dos maiores desafios à nossa sociedade, desde o instituir da democracia do nosso país. De que forma podemos olhar para este momento histórico que estamos a viver?

É sem dúvida um momento ímpar na nossa história, que, na minha opinião, será também um marco na história e na forma como a sociedade se organizará daqui em diante. Esta situação catastrófica com que inesperadamente um mundo civilizado se deparou, obrigou e obrigará a repensar que caminho, ou caminhos vamos percorrer daqui para a frente. Só podemos olhar para o futuro com esperança, percebendo que uma sociedade competitiva e individualista não servirá a luta pela sobrevivência com que nos deparamos. Para vencermos esta batalha precisamos de união e de solidariedade entre todos os seres humanos. Já toda a gente percebeu que somos globalmente um todo e que a ação individual influencia a vida de bilhões de pessoas em todo o mundo.

Como é que um diretor de uma escola lida perante uma situação desta natureza, inédita na nossa história de vida, e mesmo de gerações anteriores às nossas?

Os desafios que são colocados à sociedade são da mesma forma, ou talvez com mais tónica, colocados à escola. As escolas, por decisão do Governo, suspenderam as aulas presenciais a partir de 13 de março. Porém, a partir dessa data defrontamo-nos com a necessidade de acompanhar os alunos do ponto de vista pedagógico e didático, de modo que não perdessem a ligação à escola e ainda com a urgência em fazer um acompanhamento social, seguindo as orientações da Direção Geral de Saúde. Sensibilizando os alunos e suas famílias para a gravidade da situação e para a necessidade de se confinarem o máximo às suas residências. Identificando ainda problemas socioeconómicos de modo a junto da rede social local dar a melhor resposta possível. Tudo isto passou de um dia para o outro a ser feito à distância. Deparando-nos quer com problemas de natureza técnica, falta de equipamentos informáticos e/ou acesso à Internet por parte dos alunos e das suas famílias e constrangimentos institucionais. De um momento para o outro fui confrontado com a necessidade de gerir um Agrupamento de Escolas à distância, nem sempre tendo as ferramentas adequadas, nem recursos humanos com formação adequada para responder a estes desafios. Pelo que, estas duas semanas foram de balanço, para perceber o que correu bem e menos bem, de modo a ajustarmo-nos a esta nova realidade. Que apesar de todos os constrangimentos é também uma oportunidade para a escola se reinventar. Em todo este processo, em que nos foi exigido que fizéssemos em duas semanas o que não se fez durante décadas, não posso deixar de dizer que de forma genérica os profissionais que trabalham com o Agrupamento estão de parabéns. Apesar das dificuldades que sentiram, têm feito um esforço enorme para priorizar o interesse dos alunos e das famílias. O que é meritório.

 

Antes da decisão de encerramento das escolas, por decisão governamental, de que forma é que geriu os anseios e preocupações de uma comunidade escolar, seguramente apreensiva com o surto pandémico que, desde cedo, bateu à porta da região?

As últimas semanas que antecederam à suspensão das atividades letivas foram tempos de muita ansiedade para toda a comunidade educativa. Fiz reuniões com os diversos grupos profissionais, norteando-me sempre pelas recomendações das autoridades de saúde. Por um lado pretendia-se informar e tranquilizar a comunidade e por outro alertar para o que presumivelmente se avizinhava, de modo a prepararmo-nos, o melhor possível, para enfrentar esta pandemia, que já assolava outros povos, noutros locais do mundo.

De que forma interpreta a decisão governamental de encerramento das escolas, no âmbito da tentativa de conter a propagação do surto?

A decisão governamental que determinou o encerramento das escolas foi uma decisão acertada e tomada de acordo com as orientações da Organização Mundial de Saúde. É de referir que dias antes desta decisão as associações de diretores escolares já a tinham reclamado. A minha posição era no mesmo sentido. Não estavam criadas as condições sanitárias para manter as escolas a funcionar. Havia uma grande preocupação na comunidade educativa e na sociedade em geral. Isto retirava o equilíbrio e a tranquilidade necessárias ao normal funcionamento da escolas. Sabemos nós que esta decisão tem muitos custos económicos e sociais, que vamos todos sofrer consequências. Mas na minha humilde opinião não havia alternativa. A saúde da população está em primeiro lugar.

Como é que o agrupamento e respetiva comunidade escolar se prepararam para essa decisão?

O Agrupamento não teve grande tempo para se preparar, fizemos as reuniões a antever esta situação. Mas, não tivemos tempo, assim como os restantes setores da sociedade para nos preparamos. Estamos agora a “mitigar” os efeitos da suspensão das Escolas. Reinventando todos os dias soluções para problemas que vão surgindo. A título de exemplo nem todos os alunos têm computador e/ou Internet. Estamos a fazer um levantamento para que possamos junto da comunidade local encontrar soluções para que neste momento os que são mais frágeis não sejam, uma vez mais, os mais prejudicados.

Que preocupações e dúvidas mais frequentemente lhe chegaram por parte da comunidade escolar, no sentido de saber como proceder perante a decisão do fecho das escolas decretada pelo Governo?

A maior preocupação e o maior desafio da comunidade escolar prende-se com o facto de não haver uma estrutura criada, nem práticas de ensino à distância numa comunidade como a nossa. Sabemos todos que o ensino à distância implica por um lado uma plataforma tecnológica de suporte e por outro profissionais com formação. Tenho consciência que, o Ministério da Educação também o sabe, neste momento, as duas premissas anteriores muito débeis. O que implica um enorme esforço de liderança.

Enquanto diretor de um agrupamento vertical de escolas, de que forma olha para as perspetivas quanto ao decurso do terceiro período de aulas, isto depois de o primeiro-ministro admitir que o fecho de escolas pode ir muito além das férias da Páscoa?

No cenário atual é possível, dada a situação atual da pandemia, que o terceiro período possa ter que funcionar nos mesmos moldes em que funcionaram estas duas semanas. Estamos a preparar-nos para isso. As planificações das diversas disciplinas vão ser revistas e ajustadas, para que possam ser lecionadas, quer de modo síncrono, quer de modo assíncrono.  Há uma preocupação legítima de alunos, pais e professores, principalmente no que toca à realização das Provas Finais do 9.º ano e dos Exames Finais do Secundário.

Na forte possibilidade de haver alterações aos períodos letivos estipulados, que planos e soluções existem para garantir lecionação de conteúdos e avaliações de final de ano?

Estas decisões são do estrito foro do Ministério da Educação. Mas, no que toca à minha opinião as possibilidades que existem são o adiamento de Provas Finais e Exames e ainda um plano, a ser operacionalizado o próximo ano letivo, de reposição de conteúdos que este ano por força das circunstâncias não puderam ser lecionados como estava previsto. De uma coisa tenho a firme certeza, seja qual for a solução encontrada os alunos não podem ser prejudicados.

 

Até que ponto o cenário de inexistência de aulas presenciais no terceiro período é plausível, e de que forma tal possibilidade poderá trazer problemas às avaliações finais?

O facto de o sistema não estar preparado para o ensino à distância acarretará constrangimentos de várias ordens. Não propriamente na avaliação do que é lecionado à distância mas fundamentalmente na dificuldade em lecionar determinados conteúdos à distância. O que em última análise pode conduzir a que determinados conteúdos não sejam lecionados. O ensino à distância é já uma realidade em algumas instituições do ensino superior, mas o mesmo não acontece na generalidade das escolas do ensino básico e secundário. São raras as exceções, é utilizado para ministrar conteúdos a alunos atletas de alta competição e também em certos casos de alunos que têm doenças que implicam a permanência no domicílio. Mas a nível nacional é residual.

 

Quase que de forma simplista, a possibilidade de realização de aulas à distância é colocada como uma alternativa rápida e natural ao cenário referido na questão anterior. Até que ponto o sistema está preparado, nesse aspeto, para providenciar apoio logístico aos alunos que não disponham de computador ou acesso à internet, para poderem ter acesso a tais aulas?

Como já referir anteriormente há muitos constrangimentos. Todas as escolas farão um esforço monumental para oferecer o melhor possível aos alunos. Para os restantes alunos que não tiverem acesso a meios digitais as alternativas são o envio de materiais por via postal e outras. Mas logicamente ficarão numa situação de desfavorecimento comparativamente com os restantes. Nesta crise não é diferente das anteriores é preciso muita sensibilidade para que os mais frágeis não sejam uma vez mais, a todos os níveis, os mais prejudicados.

Tendo em conta os dados que tem à sua disposição, qual é que pensa que será o desenrolar do terceiro período letivo, seja ao nível do período de aulas, seja ao nível das avaliações?

O terceiro período, provavelmente, decorrerá em termos de tempo, de acordo com o calendário já previsto e haverá avaliações no terceiro período. Haverá, na minha opinião, naturalmente ajustes no calendário das provas finais e exames nacionais.

Quais as maiores dúvidas e preocupações que lhe têm chegado dos alunos, quanto àquilo que serão as perspetivas para a realização do terceiro período?

A grande preocupação prende-se com as datas de realização das provas finais e também a incerteza se haverá avaliação no 3.º período.

Da parte dos pais, há uma preocupação acrescida entre a conciliação da vida laboral com a obrigatoriedade de acompanhar os seus filhos, em casa. Como é que um diretor escolar gere uma situação tão complexa como esta?

A complexidade deste processo implica a sensibilização de toda a comunidade educativa para agir com bom senso, criando redes de apoio local sempre que possível. Articulando com as juntas de freguesia, câmara municipal e associações de modo a casuisticamente darmos a resposta às necessidades que vão surgindo.

De que forma os seus professores e alunos se têm adaptado a esta situação?

Como é adágio popular, “a necessidade aguça o engenho”. Estamos todos a adaptarmo-nos, usando todas a as ferramentas tecnológicas que temos ao dispor, Ferramentas da Google para a Educação…., para lecionar. Os alunos estão também entre eles a criar um rede de apoio para responder ao que os professores lhe solicitam. Este processo traz um impacto brutal na forma como a comunidade educativa se interrelaciona. O facto de todos sabermos que estamos perante uma situação nova faz com que haja uma interajuda muito grande entre todos. Só assim conseguimos continuar a funcionar como organização.

 

Até agora, de que forma avalia a ação do Ministério da Educação, na prestação de apoio e esclarecimento aos agrupamentos escolares neste momento de exceção?

O Ministério da Educação tem estado muito presente junto das Escolas. Tem criado uma rede de suporte a este modelo de ensino à distância, junto com outros setores da sociedade civil. Nomeadamente fundações, associações de professores de informática, entre outras. Mantém ainda um contacto regular com todos os diretores dos agrupamentos, de modo a acompanhar todo o processo.

Ao nível das entidades locais, como a autarquia, juntas de freguesia e outras instituições da região, como classifica a relação de cooperação e apoio mútuo que eventualmente possa existir no combate a esta situação?

A resposta local é a de primeira linha. Sempre tivemos uma relação cooperativa com todas as juntas das freguesias que compõem o Agrupamento, com a câmara municipal e com as associações locais. Uso muitas vezes o termo que estes são os nossos parceiros naturais. Neste momento estão todos a funcionar em rede social dando apoio à nossa população. Esta rede social que é dirigida pela câmara municipal visa fornecer bens de primeira necessidade às famílias mais carenciadas e proporcionar um serviço de compra de bens para os agregados familiares que, por alguma razão, não possam sair de casa.

 

Que impacto todo este problema, agora sanitário e depois social e económico, poderá vir a ter no agrupamento e na comunidade escolar?

Não sabemos o impacto total, penso que ninguém o consegue prever nesta data. Em termos económicos prevê-se que irá desbastar muitos empregos. Em termos sanitários acompanho com particular preocupação esta região, dado que há muitas pessoas que já têm problemas respiratórios de base, silicose, tuberculose. Se houver um grande contágio poderá ser dramático em termos sanitários.

 

Que lições e ensinamentos esta crise poderá trazer para a melhoria da qualidade do sistema no futuro, e que transformações poderá precipitar nas próprias metodologias de ensino a executar?

Esta crise terá um impacto descomunal no sistema de ensino, talvez como nenhuma outra teve no século passado, nem mesmo as duas guerras mundiais. O sistema foi alvo de um choque que obrigará a repensar conteúdos, metodologias, estratégias e meios necessários para as concretizar. Estou convencido que esta crise será, como disse anteriormente, um marco na história da humanidade. As organizações serão repensadas, o fim último da educação será também repensado. Citando Dewey: “A escola não é uma preparação para a vida. A escola é vida.”

 

Enquanto diretor do Agrupamento de Escolas Penafiel Sudeste, que mensagem gostaria de deixar à sua comunidade escolar, neste tempo de grande exigência para todos?

Gostaria de deixar uma mensagem de esperança, apesar desta grande incerteza que nos faz curvar e que condiciona a ação de todos, estou certo que com a nossa força e com o nosso altruísmo, vamos ajudar a virar esta página. A Escola, tal como toda a sociedade é, no momento atual, clamorosamente chamada a ser solidária e a dar um contributo para o bem-estar de todos os cidadãos, mas principalmente aos mais vulneráveis. Estamos integrados num meio social complexo, onde um pequeno esforço nosso pode ser um grande marco na melhoria das condições de vida de alguns dos nossos alunos, das suas famílias, e no amenizar do sofrimento que estão a viver neste momento. Para terminar quero agradecer todos os apoios e dizer à comunidade que conto com todos e que podem sempre contar comigo. Separados fisicamente, mas juntos enquanto comunidade penafidelense venceremos e criaremos um amanhã mais justo e mais fraterno.