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FILIPA MESQUITA: “O CAMPEONATO SÓ SE TORNA JUSTO SE TERMINAR”

Filipa Mesquita é a jornalista penafidelense que habitualmente acompanha o Penafiel nas suas aventuras pelo futebol profissional português, no jornal O JOGO.

Natural da freguesia de Termas de São Vicente, Filipa Mesquita é uma apaixonada confessa pelo futebol, mas o seu trabalho no famoso diário desportivo nacional abrange também o futsal, modalidade que acompanha com regularidade, mantendo por perto os grandes emblemas nacionais.

Na entrevista que concedeu ao Penafiel Magazine, Filipa Mesquita interroga-se sobre a elevada magnitude do impacto económico na vida de clubes e futebolistas profissionais, já a sentir grandes problemas num momento difícil.

A propósito do desfecho dos campeonatos, acredita que, dentro das possibilidades, o campeão deve ser decidido em campo, e não na secretaria. E defende que é tempo de os clubes deixarem de lado as «cartilhas» e dedicarem-se mais ao cultivo da paixão pelo jogo, chamando mais adeptos aos estádios e aproximando os clubes das respetivas massas adeptas e comunidades em que se inserem.

 

À semelhança do que sucedeu com outras áreas de atividade, também o desporto e o futebol sofreram um impacto tremendo na realização das suas atividades desportivas. Como é, para uma modalidade que movimenta biliões como o futebol, aguentar um impacto tremendo deste tipo?

A conjuntura atual trará sérios impactos em todas as áreas. O desporto, e neste caso especifico o futebol, será só mais um lesado. Temos de estar conscientes que os tempos que se seguem serão bastantes duros em termos económicos, mas não só. Todos sairão prejudicados desta situação. O futebol em concreto vai ter de arranjar subsistência nos adeptos e nas vendas de jogadores. Vão seguir-se tempos muito complicados que podem colocar vários clubes em risco. Como se tem visto no caso do Aves, por exemplo. Se até agora foi difícil assegurar salários como será daqui para a frente? A verdadeira “guerra” de sobrevivência vai começar quando o vírus for embora.

 

Quais as implicações que uma situação destas pode vir a ter nas receitas financeiras associadas às provas europeias de futebol, bem como aos campeonatos nacionais de maior dimensão?

É impossível fazer para já alguma antevisão do que será daqui para a frente, em primeiro lugar porque não sabemos até quando se manterá esta situação e depois porque os grandes clubes vão conseguir dar a volta com mais facilidade. Aquilo que vai acontecer, como já disse anteriormente, é a venda de alguns jogadores para pagarem eventuais dividas. E depois pode haver jogadores que não tenham interesse em renovar caso vejam o salário a baixar. Há várias hipóteses, mas não creio que isso vá afetar diretamente com qualidade dos jogos que vamos assistir. Acho apenas que todos os clubes, grandes ou pequenos, vão ter de adotar medidas de subsistência.

 

Quais as consequências desportivas e financeiras dos adiamentos das diversas provas futebolísticas à escala europeia?

Está tudo em volta da mesma questão, esta paragem tem consequências incalculáveis. Jogos adiados significa que não há qualquer dinheiro a entrar. As receitas das bilheteiras caindo por terra pode deixar muitos clubes em maus lençóis. Desportivamente é ainda pior. Os jogadores mesmo treinando em casa perdem ritmo de jogo e quando regressarem podem comprometer o clube, por não terem a mesma preparação física.

 

Quais os países que poderão sofrer mais com esta situação, e porquê?

Acho que é um problema global. Até porque em todos os campeonatos há clubes com mais orçamento e outros com menos. Isto generaliza-se, mas depois é preciso particularizar. Cada caso será diferente, mas todos vão sofrer consequências, com maior ou menor intensidade. Aqui em Portugal a situação vai ser bastante má, porque já há clubes com condições precárias.

 

Na tua opinião, de que forma deveriam ser decididos os títulos das duas provas europeias de clubes – Liga dos Campeões e Liga Europa?

Sinceramente acho que tomar uma decisão neste momento não é o mais sensato. Primeiro de tudo é preciso perceber o tempo que esta situação se pode arrastar. Se realmente for ainda mais do que o espectável acho que deve ser decido em apenas um jogo por eliminatória. Quanto mais rápido possível, melhor. Mas creio que face ao adiamento do campeonato da Europa e da Copa América, vamos mesmo ter futebol durante o verão.

 

Em Portugal, que modelo defenderias ou sugeririas para o desfecho dos campeonatos na presente temporada?

Este campeonato só se torna justo se terminar. Não creio que haja qualquer justiça em ser campeão quem é líder no momento, como também não acho que seja justo ser quem seguia na liderança no final da primeira volta. Aquilo que é mais correto é levar o campeonato até ao fim. Caso não seja possível é fazer então duelos entre os primeiros lugares e os últimos. Claro que esta solução não seria a mais justa também, mas entre todas as hipótese seria a mais indicada.

 

Há quem adivinhe a possibilidade de o futebol português entrar numa crise iminente, no caso de o Estado não priorizar a ajuda aos clubes num momento que será difícil. De que forma os clubes portugueses poderão sofrer com esta grande crise de saúde pública, à escala planetária?

Eu vibro imensamente com o desporto, e neste caso específico com o futebol, mas temos de ser racionais nesta fase delicada que atravessamos. O futebol não é prioritário e não tem de ser concretamente o estado a ajudar. Temos as organizações desportivas especificas para estas eventualidades. E há muita gente pelo mundo fora com vontade de investir em clubes. Acho sinceramente que esta era a altura crucial para esses investimentos. Era uma forma de contribuir significativamente para a subsistência dos clubes.

 

Até que ponto os clubes das ligas secundárias, Segunda Liga ou Campeonato de Portugal, bem como dos campeonatos distritais, poderão estar particularmente vulneráveis a um período mais difícil?

Sem dúvida que são esses clubes os mais lesados. São os clubes que geralmente têm menor poder económico. Não falo tanto da segunda liga, mas o Campeonato de Portugal e os distritais vão enfrentar duras crises. Já é triste pensar na falta que há de adeptos nestes escalões, mas agora imagina-los sem condições para apresentar uma equipa é muito complicado. Na segunda liga também há clubes que não têm orçamentos avolumados e claro que vão ter, inevitavelmente, de recorrer à venda de jogadores e a um marketing forte para atrair a massa associativa.

 

No caso de uma crise confirmada no futebol, que adaptações terão de ser feitas pelos clubes portugueses, nomeadamente os da nossa região por exemplo, para superar este momento?

Eu acho que acima de tudo tem de haver uma adaptação de todos. Tantos dos dirigentes como dos jogadores. A situação é nova para todos, mas se houver paciência e compreensão as coisas melhoram com o tempo. Mas é preciso uma intervenção forte do marketing. Chamar as pessoas ao estádio, criar uma publicidade forte que se venda por si só. É momento de usar a inteligência e dar a volta por cima. Porque é uma crise inevitável, mas que tem soluções.

 

Sendo o Tâmega e Sousa uma das regiões portuguesas mais afetadas pela pandemia, que consequências esta situação, que terá impacto na nossa atividade económica, vai ter nos clubes destes concelhos?

Isto vai ter consequências económicas muito grandes. E é normal que determinadas empresas que contribuem diretamente com apoio aos clubes possa ponderar deixar de o fazer. Chama-se lei de sobrevivência e há custos que têm de ser reduzidos. Os patrocínios existentes no futebol são uma mini fortuna que os clubes adquirem facilmente. Perdendo isso, acabam inevitavelmente por ter uma crise económica bem maior.

 

Até que ponto os três «grandes» reagirão de forma diferente dos demais, à crise que advirá da pandemia?

Não creio que vão agir de forma diferente, pelo contrário. Acho que cada clube pode adotar medidas diferentes, sim, mas que no fundo vão todas ter a mesma finalidade. Neste momento os três grandes atravessam fases diferentes a nível financeiro e isso também pode pesar, mas não acredito que nenhum dos três fica atrás de alguma forma devido a esta situação.

 

As crises trazem problemas, expõem fragilidades, mas trazem também oportunidades. Que oportunidades poderão ser trazidas por esta crise, no sentido de um melhoramento de certas fragilidades e problemas que, no teu entendimento, possam existir atualmente no futebol português?

Há muito tempo que o futebol perdeu a sua essência. Os adeptos já começavam a não ir aos estádios, já só falavam do seu clube apenas para criticar o rival. Havia tanto dramatismo à volta dos três grandes que muitas vezes havia uma desvalorização total para com as restantes equipas. A preocupação maior era ganhar e muitas vezes nem as regras do jogo sabiam. Havia um mundo para lá das quatro linhas quando aquilo que realmente interessava era desvalorizado. Com isto tudo que está acontecer, acho que tudo o que disse anteriormente pode mudar. As pessoas vão começar a valorizar mais uma ida ao estádio porque até então não o podiam fazer. Vão começar a falar do jogo porque durante dias não tiveram o prazer de ver nenhum. A rivalidade vai dar lugar ao respeito pelo rival porque afinal há coisas acima do futebol. E no fundo isto é só um jogo que merece ser vivido e respeitado. A essência perdida no tempo pode ser parcialmente recuperada.

 

Para terminar, quais os argumentos que, na tua perspetiva, justificariam uma intervenção de forte apoio do Estado ao desporto, particularmente no futebol?

Como já disse anteriormente acho que as organizações desportivas devem ajudar em primeira instância se for possível. Creio que o Estado também pode intervir, mas vai haver, inevitavelmente, coisas prioritárias.
Acho é que não devemos desvalorizar o futebol porque é um mundo que contribui muito para os restantes setores. Seja na restauração ou hotelaria, nos dias de jogos sobretudo. No comércio com a venda de produtos. Nos departamentos inerentes a cada clube também. Tudo está interligado.