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ÓSCAR COELHO: “O RACING FEST É UM MODELO PARA O FUTURO DO DESPORTO MOTORIZADO”

O penafidelense Óscar Coelho é uma pessoa que exemplifica bem o que significa “fazer o impossível”.

Do sonho à realidade, o Racing Fest transformou Penafiel numa referência em grandes eventos anuais de desporto motorizado, numa iniciativa que consegue surpreender a cada ano que passa.

Com um sucesso fenomenal na primeira edição, este grande festival de desporto motorizado impôs-se no panorama desportivo nacional e, segundo confirmado pela organização, vai albergar três provas nacionais, e uma quarta poderá estar a caminho. E mesmo perante um cenário económico complexo, antevê-se uma subida significativa do número de participantes, cada vez mais interessados em fazer parte desta grande festa.

Paralelamente à organização deste grande evento, Óscar Coelho é também um apaixonado confesso por desportos motorizados. Conhecedor da realidade nacional e internacional das diversas disciplinas, considera que o cenário para o automobilismo e motociclismo nacionais pode ser complexo, e requerer adaptações significativas das federações e pilotos a novas realidades.

No entanto, há um ponto que também destaca, que é o das dinâmicas económicas que estas modalidades geram. Neste âmbito, o entrevistado descreve as múltiplas atividades empresariais envolvidas na organização destes eventos, e o impacto enorme que têm na divulgação turística do país. Daí ver com enorme expectativa a possibilidade de regresso de grandes competições como o MotoGP, e defender a consolidação de eventos de sucesso, como o Rali de Portugal, o Mundial de Ralicross em Montalegre, ou o WTCR no circuito urbano de Vila Real.

 

A luta contra o covid-19 é tema incontornável do debate por estes dias, e constitui um dos maiores desafios à nossa sociedade, desde o instituir da democracia do nosso país. De que forma podemos olhar para este momento histórico que estamos a viver?

A forma de olhar para esta pandemia, na minha ótica, é para fazermos uma profunda reflexão sobre o que andamos a “pedir” já há algum tempo. Quem nunca disse que gostava de ter mais tempo para a família, para os amigos e para fazer as coisas que mais gosta…? Quem nunca? E agora, cá estamos nós a parar o ritmo frenético que as nossas vidas estavam a levar devido a um vírus que se desenvolveu do outro lado do mundo onde vive a mão de obra barata que fabrica as “pechinchas” que importamos diariamente para alimentar o nosso modelo de vida ocidental. A nossa ansia de aquisição dessas “pechinchas e negócios da China” para manter o “status social” e alimentar uma cadeia de consumo voraz, fez nas últimas duas décadas com que vivêssemos no trabalho e fossemos descansar a casa, à pressa e sempre “ligados” para resolver os assuntos da empresa e dos nossos trabalhos. Este modo de estar na vida poderá deixar de existir num futuro muito próximo. Quanto ao país, temos quase 900 anos de história, com bases muito bem fundamentadas, com uma diplomacia sólida no exterior e uma democracia bem instituída internamente.
Isto pôde ser constatado pela forma ordeira como acatamos as indicações dos profissionais de saúde nos primeiros alertas, mesmo sem que o Estado de Emergência tivesse sido instituído. Neste momento temos um governo empossado e munido de todas as ferramentas legais para ser (ainda) mais firme e intrusivo nas nossas vidas, mas que tem usado isso de forma muito serena e subtil, o que me agrada e descansa. Por isso tenho muito orgulho enquanto elemento ativo desta sociedade e grupo de pessoas unidas social e culturalmente a que chamamos Portugal que é o nosso país.

 

No desporto motorizado nacional e internacional, os impactos têm sido tremendos, e em várias competições, os primeiros grandes prémios foram sistematicamente adiados para datas indefinidas. Que impacto esta situação vai trazer às decisões desportivas destas competições?

O impacto é obviamente enorme! Mas como poderia não ser com uma pandemia com um índice de contágio desta dimensão? As decisões desportivas vão ser com certeza atípicas! Não nos podemos esquecer que as ações e alterações que normalmente poderiam demorar um ano inteiro a serem discutidas até serem aplicadas pelas federações que tutelam os desportos motorizados, neste momento, estão a ser tomadas no prazo de horas, no intuito de não se deitar a toalha ao chão, quando há campeonatos que ainda nem sequer começaram. Penso que a adoção de um numero mais reduzido de provas será o caminho mais sensato a seguir, até que possa ser reestabelecido um modelo ajustado à nova realidade que se avizinha e que ainda ninguém sabe bem qual será.

 

Quando falamos em campeonatos de dimensão internacional (WRC, MotoGP, F1), falamos de competições que envolvem competidores, equipas, estruturas e adeptos de várias nacionalidades e proveniências. Sabendo que o combate a esta pandemia vai ser duradouro, até que ponto é plausível a possibilidade de estes campeonatos estarem mesmo em risco?

A possibilidade ainda é uma incógnita. Todas as provas motorizadas estão suspensas até 30 de Abril por indicação das federações internacionais, e só há provas agendadas para depois de Maio, que é mais ou menos o mínimo de tempo que é necessário para as organizações poderem reestabelecer-se e porem os eventos de pé novamente em Junho, obviamente se houver continuação de trabalho prévio através do tele trabalho ou outras formas de se ir avançando, como nós temos feito. Mas considero demasiado prematuro fazer qualquer previsão nesse sentido, pelo facto de ainda não ter chegado o pico do contágio a nível mundial. Só a própria evolução e combate ao vírus e a procura por um fármaco que realmente pare a pandemia, é que poderá fazer com que os campeonatos sejam apenas adiados e ajustados, ou se terá que ser mesmo determinado o cancelamento integral dos mesmos para esta época desportiva.

 

Na eventualidade de algumas provas mundiais de desporto motorizado não se realizarem de todo, que impactos isto traria ao desporto motorizado mundial?

Obviamente o impacto seria muito forte. Apesar das equipas de topo terem orçamentos que lhes permite manter os atletas (pilotos) de alto rendimento a fazer treinos, a fornecer dados e a evoluir “setups”, e até a evoluir integralmente as próprias máquinas com os seus “batalhões” de engenheiros e mecânicos durante um ano, esse cenário seria uma estagnação e consequente declínio das soluções testadas até ao momento. Soluções essas, fundamentais também para a própria indústria da mobilidade mundial. Não podemos esquecer que grande parte das soluções dinâmicas e de segurança que as nossas viaturas do dia-a-dia hoje têm equipadas, são consequência de anos e anos de testes e estudos exaustivos nas competições. Uma paragem abrupta, iria obviamente afetar a pesquisa de novas soluções futuras, quer as que estão em desenvolvimento constante, quer as que ainda nem sequer foram inventadas.

Provas de grandes pergaminhos, como a NASCAR, a IndyCar Series ou a IMSA, são realizadas nos Estados Unidos, que muitos especialistas apontam como podendo ser um país em que o coronavírus tenha uma incidência epidémica significativa nos próximos tempos. Sendo estas provas mobilizadoras de grandes recursos e grandes investimentos, que impacto o atraso destas provas poderia ter à escala global?

Obviamente que as organizações à escala dos Estados Unidos, são gigantes comparadas com as europeias. Mas julgo que a alteração do funcionamento das provas e campeonatos europeus teria mais impacto global do que propriamente as provas e campeonatos americanos. A indústria do desporto motorizado espetáculo norte americana, apesar da movimentação de quantias astronómicas em equipas, bilheteira, prémios e direitos de imagem, a nível global não goza da mesma credibilidade nem do mesmo peso que as europeias. Neste caso, as provas FIA são mais abrangentes e impactantes mundialmente que as provas dos Estados Unidos que são mais regionais e fechadas dentro do seu próprio país com algumas extensões a países da Commonwealth. Não sabemos se o impacto do Covid19 nos EUA poderá afetar negativa ou positivamente o desporto motorizado no resto do mundo ao nível de sponsors ou de target de publico. É um prognóstico reservado e com demasiadas variáveis para ser possível desenhar com clareza e com as informações que temos disponíveis neste momento.

 

Em Portugal, à semelhança do que sucede no continente europeu, as provas das diversas disciplinas têm sido adiadas ou canceladas. Desde logo, quais as consequências da não-organização destas provas para a economia dos locais que as acolhem, tendo em conta que algumas dessas provas movimentam muitos adeptos e espectadores?

A não realização de provas, obviamente tem um impacto negativo no quadrante económico e mesmo social. Começando no turismo, alojamentos, restauração e divulgação das regiões, isto se analisado apenas o impacto de visibilidade imediata e inerente ao dia do evento. Mas temos que equacionar também todas as perdas da indústria e dos vários ramos dessas regiões. Temos que ter em conta que as provas para o publico são apenas na data agendada, mas para as organizações, equipas e pilotos, as provas começam muitos meses antes, fazendo todo um tecido empresarial da região se movimentar até à data de realização do evento. Em Portugal, funcionam as oficinas, casas de peças, casas de acessórios, agentes de publicidade, programadores web, designers, produtores de audiovisuais, comunicação social, que estão meses antes a preparar e a fornecer produtos, serviços e conteúdos para a organização, para os pilotos, para os sponsors e para toda a hotelaria e restauração se preparar para a data do evento.
Mesmo as próprias equipas preparam as máquinas, realizam testes, treinos, é todo um mundo económico e financeiro que começa a funcionar nos meses que antecedem as corridas que trabalham a “full power” e que culmina com o dia do evento, mas que ainda alguns agentes ficam a trabalhar algumas semanas para alem do final das provas. Por isso as perdas económicas são muito superiores às que uma visão desatenta pode deixar de analisar.

 

Para os pilotos e equipas, que consequências se podem verificar, desportivas e financeiras, no que concerne à presente temporada?

No caso de Portugal, isso pode ser dramático financeira e desportivamente. Neste momento penso ser assustador estar na pele de um piloto ou equipa que arriscou investir na aquisição, ou num contrato de aluguer de uma viatura para se propor a lutar por um dos vários campeonatos de Portugal, e fê-lo no final do ano passado com vista a esta época desportiva, que poderá nem vir a acontecer. Este tipo de projetos na sua maioria são construídos com base em contratos de publicidade com patrocinadores que vão pagando os valores acordados durante o ano até perfazer a quantia final, e às vezes ainda há prémios de desempenho ou objetivos na classificação que podem gerar mais algum “income” financeiro. Nesta altura é muito complicado parar uma máquina que já está em andamento, mas isso pode acontecer mais que nunca. Acontecendo, muitos pilotos e equipas poderão ser “arrumadas por KO técnico” e vão ficar em situação financeira de rotura.

 

Como sabemos, grande parte dos pilotos das várias disciplinas do automobilismo e motociclismo nacionais competem claramente dependentes de uma combinação entre recursos próprios e o apoio fundamental dos patrocinadores. Face à difícil situação económica que se adivinha, o que poderá vir a ser o futuro próximo do desporto motorizado nacional?

Julgo que a fase de ajustamento a uma nova realidade, trará moldes inovadores às provas e quero crer que serão ajustados um pouco ao modelo criado por nós aqui em Penafiel. A concentração de várias provas num único evento, com várias modalidades, com distancias mais curtas é um fator de peso nos custos das equipas e dos pilotos. Mesmo ao nível das organizações, esta concentração permite uma significativa redução de custos e meios, quer ao nível da segurança, da comunicação e também de logística. Unir todos estes esforços para um evento único que agrade à maioria dos aficionados, poderá ser a solução mais viável para um grande numero de modalidades. Acho que este assunto deverá ser pensado em breve pelas federações e clubes organizadores como uma estratégia de interesse comum e que devem ser partilhados os recursos para a execução das mesmas.

 

Ao nível do desporto motorizado da nossa região, que consequências a crise económica iminente poderá ter nos nossos pilotos?

Obviamente será muito impactante. Não podemos esquecer que a nossa região é um dos centros mais importantes da Península Ibérica, quer a nível de pilotos quer ao nível de exportação de engenharias de competição e de conhecimento. Claramente que afetará a todos, mas devemos recordar que no que toca a provas de terra, estamos na região onde há mais praticantes e aficionados da península e esta proximidade reduz os custos de participação porque tira da equação as grandes deslocações, alojamento e alimentação das equipas. Certamente que o impacto para os pilotos da nossa região será claramente inferior ao dos pilotos do cento e sul do país, que são menos, tem menos condições e os campeonatos regionais de lá são claramente inferiores. Se eles quiserem estar num nível competitivo alto, tem que se deslocar ao norte do país.

 

Várias notícias dão conta da possibilidade de, por força de provas canceladas e existência de restrições de deslocação, provas como o MotoGP possam regressar a Portugal já este ano, e o WTCR terá planeada uma corrida extra em Vila Real. É correto acreditar que toda esta situação poderá ter um reverso da medalha, e trazer mais provas de grande nível ao nosso país?

Obviamente que sim! Creio que após esta pandemia passar, os eventos de nível mundial irão voltar a Portugal e em força. Temos um país acolhedor, politicamente estável, com 9 meses de sol por ano, que cumpre as regras, tem massa associativa e clubística, poder de organização com os mais altos padrões mundiais, público ordeiro e fantástico, por isso todos os ingredientes estão em sintonia para que logo que o Covid19 tenha cura, estarmos de imediato na rota dos mais prestigiados certames mundiais. Só mesmo a falta de infraestruturas poderá castrar isso, visto que as que há em Portugal ou são deslocadas dos fãs e dos praticantes, como o AIA no Algarve e o circuito de Montalegre, e as que temos mais próximas, já são muito antigas e não cumprem os novos requisitos, como a pista da Costilha em Lousada, que já foi Euro-circuito, ou o Circuito Vasco Sameiro em Braga. Todos sabemos que as autarquias lutam para ter esses eventos nas suas regiões, mas o Circuito Citadino de Vila Real, e a Street Stage do Rally de Portugal, no Porto, em Gaia ou em Braga, tem custos enormes, retornos enormes, mas não tem continuidade. Está comprovado que o custo/beneficio é claramente positivo, mas a falta de continuidade no processo de desenvolvimento das modalidades fica castrado porque não há local para treinos, testes e condições para agrupar as equipas e as industrias fornecedoras.

 

Por outro lado, foram já confirmados os adiamentos de provas como o Mundial de Ralicross, em Montalegre, que estava projetado para o início de maio, bem como do Rali de Portugal, que também se realizaria esse mês. Acreditas que é possível sonhar com a realização destas provas ainda em 2020?

Sonhar? sim, sonhar é possível! Mas não me atrevo a fazer futurologia numa altura como esta. Vamos mesmo ter que aguardar pelo dia 30 de Abril para ver em que ponto de situação se encontra a pandemia e o que é que as federações internacionais vão dizer. E o que elas vão decidir será obviamente alinhado com os mais altos padrões de segurança e salubridade.

 

Se porventura Portugal não conseguisse reunir as condições necessárias para albergar estas provas e as outras estipuladas, que consequências isto teria para as economias locais dos concelhos e regiões que acolhessem estes eventos?

Teria certamente um impacto muito negativo. Portugal tornou-se na ultima década um destino turístico de excelência aliando a isso uma movida jovem e cosmopolita que procura mais do que as belas paisagens, monumentos e gastronomia, procura também experiências. E o desporto motorizado é comprovadamente um excelente polo de atração para os aficionados e é uma experiência impar e a repetir para quem assiste ou participa pela primeira vez.
Claro que isso afetaria as economias locais, não só no ponto de vista imediato como no caso da restauração e hotelaria, como também no setor da metalomecânica, serviços e retalho.

 

No meio de todo este turbilhão de adiamentos e cancelamentos, o Penafiel Racing Fest mantém-se, pelo menos para já, agendado para 26, 27 e 28 de junho. Para já, em que medida esta situação mundial pode, desde logo, afetar não necessariamente a data do evento, mas as próprias condições em que o mesmo se realize, nomeadamente no que se refere à gestão do grande aglomerado de pessoas que o Racing Fest gera?

Está aí uma questão pertinente. Desde a primeira edição que confessei ter pensado e desenhado este formato para que pudesse ser transmitido pela televisão e nas plataformas digitais e tornar-se num espetáculo, num festival e algo muito mais além do que um simples fim de semana de corridas. Como a própria concentração de provas o permite, um dia que consigamos ter os apoios necessários, obviamente que este será um evento para ver em casa na televisão e ser muito interativo através da internet, especialmente pelas redes sociais e pelas plataformas digitais. Isso é possível desde há três anos, está identificada a forma de o fazer, estão testados os modelos singulares de cada modalidade. Falta apenas testar na íntegra e em situação real. Obviamente isso elevaria significativamente a qualidade e consequentemente os custos, e isso infelizmente julgo não poder ser possível este ano ou no ano que vem. Não por falta de conhecimentos, tecnologia e capacidades técnicas para ser exequível, mas pela falta de um sponsor forte que nos dê folga financeira para executar e sermos novamente pioneiros a nível mundial com uma plataforma de interação direta entre os pilotos, as provas e os espectadores. Quanto à gestão do imenso público que todos os anos acorre em massa ao Racing Fest, só mesmo depois do dia 30 de abril e mediante indicação das federações internacionais é que vamos reunir com todas as autoridades e delinear um plano que seja adequado aos conhecimentos que estamos todos a adquirir com esta pandemia, e obviamente agiremos em conformidade sempre com o superior interesse dos pilotos e do público em geral.

 

Ao nível da adesão de pilotos, esperas uma adesão à medida do que vem acontecendo das edições anteriores, ou receias que a atual situação vivida possa condicionar o leque de participantes em termos de qualidade e quantidade?

Não só esperamos uma adesão à medida dos anos anteriores, (mais de 200 inscritos só no desporto motorizado) como creio que ultrapassaremos esse numero, se assim o quisermos permitir. Como é sabido, perto de 50% dos pilotos são naturais do concelho de Penafiel e cerca de 30% são dos concelhos vizinhos ( Lousada, Paredes, Marco de Canavezes, Paços de Ferreira, Gondomar, Amarante, Baião). Neste momento temos sido “bombardeados” com mensagens e imagens da preparação das máquinas, dos novos inscritos que já sabemos que vamos ter e o entusiasmo que é notório. Por isso a qualidade e a quantidade estão garantidas, mas tudo vai depender das decisões das federações internacionais, que como já disse anteriormente, terão o maior cuidado e respeito pelas mais altas regras de segurança. E só mesmo o Covid19 se continuar descontrolado, é que poderá ditar o adiamento ou o cancelamento.

 

Ao fim de três edições de Racing Fest, que estatuto granjeou esta prova no desporto motorizado nacional?

Só ao fim da terceira edição é que ficou marcadamente comprovado para as autoridades nacionais que este modelo é válido e que deve ser seguido e replicado. Foi unanime entre os “especialistas” na matéria que o modelo é claramente funcional. Por isso o estatuto é o de um modelo de confiança para as federações, para os pilotos e para o público, o que torna este evento de elevado prestigio para quem participa ativamente.

 

Em todas as edições, organização e parceiros institucionais têm sublinhado a importância de manter o formato vigente do evento, bem como a sua matriz não-competitiva. Qual a importância deste espírito de festa, como identidade do Racing Fest?

Para nós organização é imperativo que o espirito de festa seja bem patente. Este é um festival de desporto motorizado e de “urban lifestyle”, onde todos se devem sentir integrados. Daí termos vindo a adicionar mais modalidades e mais arte e cultura. O rádio-modelismo, os concertos e a Fun Zone “family friendly” que montamos no ano anterior foram fundamentais e um passo gigante na direção da parte lúdica e de espetáculo que queremos manter. Para este ano temos previsto mais modalidades que não são de desporto motorizado, mas que vão de encontro ao que os jovens nos solicitam e que tornará o Racing Fest um evento mais “youth friendly“ também, assim o Covid19 o permita.

 

Até que ponto, um dia que estabilize este formato, podemos pensar futuramente na possibilidade de albergar etapas de campeonatos nacionais e regionais em algumas das seis provas que o evento contempla?

Todos os anos é muito difícil tecnicamente pôr este evento na estrada. No primeiro ano foi necessário mostrar que o modelo poderia funcionar com todas as modalidades acontecer no mesmo espeço temporal. No segundo ano, foi altura de embelezar os espaços e vincar o evento na sua matriz, o terceiro ano foi para afirmar que há possibilidade de crescimento a nível da qualidade e da diversificação. A possibilidade veio com o tempo e com afirmação deste formato. Recordemos que através do Racing Fest, foi criado o primeiro Campeonato de Portugal de Drag Racing que agora segue pelo país. Pela primeira vez estes “street racers” passaram das corridas legais na estrada, para um ambiente controlado pelas autoridades e com regulamentos desportivos e de segurança elaborados por nós, que juntamente com as autoridades os fizemos cumprir. Através do Racing Fest, foi criado o Campeonato de Portugal de Trial Urbano 4×4, uma modalidade que até então não existia em lado nenhum do mundo. E posso dizer-te em primeira mão que esse campeonato nacional está marcado para Penafiel no Sábado. Também já é sabido que a prova de Abertura do Campeonato Nacional de Super Enduro, será no nosso evento na sexta feira e o Troféu Nacional ACAAN terá uma das provas no Racing Fest no domingo com o Rally de Regularidade de Carros Históricos. Por isso, três eventos nacionais estarão presentes no Racing Fest 2020 e a possibilidade de um quarto Campeonato nacional está ainda em aberto. Por isso essa possibilidade que questionas, foi já marcadamente concluída o que nos orgulha e é o maior atestado de prestígio e credibilidade que pode ser atribuído ao Município e à organização.

 

Ao fim destas três edições, quais os maiores elogios que os visitantes do evento, bem como pilotos, têm dado à organização do evento?

Os visitantes e participantes ficam impressionados com a capacidade organizativa, com o modelo do evento no geral e com a qualidade das pistas e circuitos em particular. Também fazem elogios à forma como conseguimos trazer as corridas para junto do público e com o formato da Fun Zone que com a dinâmica dos pódios e do entretenimento faz com que pilotos, patrocinadores e publico possam interagir, disfrutar e trocar experiências. Aquele espaço de diversão e cerimónia de pódios com praça de alimentação é de onde todos levam as melhores recordações para alem das competições em si.

 

Em que aspetos a organização sofreu maiores críticas, e o que foi feito para melhorar nesses aspetos?

No primeiro ano, foi complicado por não contarmos com tamanha afluência de publico, isso incomodou também os moradores e os comerciantes, mas logo no segundo ano, com a ajuda dos Serviços Municipais da Camara Municipal de Penafiel, foi logo resolvido. No domingo à tarde quer na cidade, quer nas freguesias a “casa estava arrumada” isso foi um salto qualitativo para todos. Mas as maiores criticas, até vieram por parte dos pilotos por causa dos atrasos das provas. Os poucos recursos necessários no inicio dos troços e circuitos, apesar de no ano anterior terem sido reforçados os meios, nomeadamente os reboques, atendendo à dimensão ainda não foram os suficientes, mas como temos isso em conta, temos previsto um reforço ainda maior já para a próxima edição. Ao nível do publico, tem sido complicado gerir a movimentação entre pistas, todos os anos fazemos o planeamento de mobilidade para as Zonas Espetáculo, mas como tem sido crescente o numero de visitantes, temos planeada uma nova abordagem a esse assunto, apoiada na informação digital e no Google Maps, que achamos que irá facilitar em muito os acessos.

 

Numa altura de iminente crise, em que boa parte da população poderá pedir mais investimento da autarquia e outras entidades importantes no domínio social, até que ponto poderemos assistir a maiores críticas à despesa com a organização do Racing Fest, e que argumentos contrapões, no sentido de defenderes o investimento no Penafiel Racing Fest?

As críticas vão continuar a ser as mesmas e vindas dos mesmos lados. Obviamente que teremos que ter em conta que as autarquias estarão muito mais focadas nos apoios à população, mas não devem descurar a parte sociocultural que envolve os os eventos que nos definem como sociedade e como identidade de uma região, e nesse campo o Penafiel Racing Fest é sem dúvida uma marca que agrega cerca de 30 associações, clubes e instituições do concelho e tem mais de 200 pessoas na organização e mais de 2000 pessoas associadas a esses clubes, associações e instituições. Só temos um clube de fora do concelho que nos apoia com a gestão de uma das provas e com o alvará e uma empresa que faz a gestão de tempos e classificações. Só esses serviços é que são “encomendadas” fora. Um é de Gondomar e outro em Amarante, por isso este é um motor económico muito forte para a nossa região. Atrevo-me a dizer que todo este evento é feito com quase 100% de “Prata da Casa”.