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CRISTIANO NOVAIS: “DESFRUTAR DO FUTEBOL FAZ-ME MUITO FELIZ”

Defesa-central do Rio de Moinhos que completa 29 anos a 15 de maio, Cristiano Novais, hoje segundo capitão da equipa principal, tem uma carreira desportiva de tal modo intensa e interessante, que se arrisca dizer que daria um bom livro.

No futebol, não aprendemos a evoluir só com os «craques» e as «estrelas» da modalidade. Por detrás do «glamour» associado à elite do futebol mundial, existe um imenso número de jovens que, às vezes por detalhes, ficaram pelo caminho na luta pelo sonho.

E o entrevistado de hoje esteve lá muito perto, num percurso em que foi cogitado para as seleções nacionais, e que o levou a clubes como o Penafiel e o FC Porto. Hoje, é um dos jogadores mais experientes e respeitados do Rio de Moinhos, e uma das peças do «núcleo-duro» com que o clube se tem desenvolvido nas recentes épocas.

São essas alegrias e tristezas, conquistas e desilusões, que esta entrevista capta. Para que se saiba o que é preciso fazer para se chegar ao topo, para se manter no topo, para resistir à queda e, quem sabe, para ganhar forças para regressar à elite, talvez em outras funções. Porque enquanto há vida, há jogo para se jogar.

Depois de mais uma época tranquila do Rio de Moinhos na Divisão de Honra, uma crise sanitária sem precedentes na história cancelou a competição. Que análise pode fazer-se de mais uma época do Rio de Moinhos?
Posso dizer que se me propusessem o 10º lugar da tabela classificativa antes de começar a época, eu aceitaria de imediato. Chegou um novo treinador, saíram jogadores experientes e importantes das campanhas anteriores e chegaram bastantes jovens oriundos, na sua maioria, de escalões inferiores e das suas equipas de juniores. A proposta de jogo do treinador era totalmente diferente daquilo que vinha sendo a nossa essência dos últimos anos. Ou seja, teoricamente, adivinhava-se uma época bastante complicada. Felizmente, a equipa assimilou muito rápido as ideias do mister e trabalhou muito no aperfeiçoamento da ideia que ele tinha para o nosso jogo. Correu tudo bem, com algumas dores de cabeça que são mais frequentes quando temos uma equipa tão jovem, mas acredito que, se houvesse a possibilidade de terminar o campeonato, iriamos subir algumas posições na classificação.
A equipa tem conseguido estabilizar-se na Divisão de Honra, desde que subiu em 2016/17. Que fatores ajudam a explicar esta consistência a nível desportivo?

O Rio de Moinhos tem muitos anos de história e muita tradição nos campeonatos distritais da AF Porto, mas a verdade é que, apesar de já ter estado nesta divisão, creio que nunca conseguiu chegar à terceira época consecutiva. Já vamos para a quarta. O clube é gerido pelo nosso presidente António Silva, que é alguém que gosta de dar passos firmes e seguros, daí que o que está a acontecer agora, já está a ser preparado há vários anos. Além de toda a evolução do clube a vários níveis, como as suas infraestruturas, condições de trabalho, a própria estrutura diretiva, entre outras coisas, o presidente juntamente com o Nandinho, que é o nosso diretor desportivo, têm sabido preservar aquilo que é, na minha opinião, o nosso maior trunfo. Estou a falar da força do nosso balneário. Temos tido excelentes grupos de trabalho capazes de ultrapassar todos os obstáculos e dificuldades que vão surgindo ao longo das épocas. Nunca se vira a cara à luta neste clube. O nosso balneário tem coração de ouro e somos capazes de dar tudo de nós por um colega. Há valores que têm sido mantidos há muitos anos no seio do grupo e acredito que são a razão da nossa estabilidade, além da qualidade dos jogadores e treinadores como é óbvio.

O Rio de Moinhos parece ser um projeto desportivo em crescendo, capaz de subir regularmente patamares de competitividade ao longo dos anos. Até que ponto esta perceção corresponde à realidade, e qual o trabalho que tem sido feito para que este crescimento seja possível?

É verdade. Tal como disse há pouco, há um trabalho a ser desenvolvido há anos para que o clube esteja como está. Lembro-me ainda de jogar no campo em terra, das bancadas sem cadeiras e sem qualquer abrigo para os nossos adeptos, dos balneários sem as melhores condições. Hoje tudo é diferente e muito melhor, obviamente. Temos um estádio cada vez mais bonito e com melhores condições para os nossos sócios e atletas. A estrutura diretiva também vai evoluindo e os responsáveis máximos pelo futebol sénior têm sabido manter no plantel uma estrutura base que lhes garante a permanência de certos valores que temos como pilares do nosso balneário e grupos de trabalho. Se as pessoas repararem, o Nandinho, que foi nosso capitão durante muitos anos saiu, deixando o Cruz como nosso líder. Agora, o Cruz saiu e temos o Oliveira como capitão principal, eu como segundo capitão e o Menezes, que não parece, mas que também já está no clube há algum tempo. Sei que esta sucessão foi sempre planeada e deixo os meus créditos para o nosso diretor desportivo, o Nandinho, que depois de um excelente capitão, é agora o elo de ligação entre o grupo de trabalho e a direção. Os valores que eu hoje tento transmitir aos mais novos foram-me transmitidos a mim durante anos. Há muito trabalho desenvolvido no dia a dia do clube, desde cada elemento da direção até à rouparia, onde encontramos três pessoas muito importantes que tudo fazem para que nada nos falte e vão muitas vezes bastante além daquilo que são as suas obrigações, mesmo com todas as dificuldades dos dias de hoje e consequente limitação de recursos. Não nos mimam mais se não poderem mesmo. Portanto, há aqui uma grande envolvência desde o topo ao fundo da hierarquia, para que tudo corra pelo melhor e da forma mais tranquila possível.

És um dos jogadores mais experientes do plantel, e já somas oito épocas, intercaladas por uma temporada no Lousada, a envergar a camisola do clube. Como surgiu esta possibilidade de jogar no clube pela primeira vez, em 2011/12?

Quando terminei a minha formação nos juniores do Penafiel tinha boas expectativas e esperança de conseguir um clube de um patamar mais próximo do profissionalismo. Não me passava pela cabeça o futebol distrital e na verdade, naquele momento, não era o que eu queria para mim. Achava que ia conseguir um clube pelo menos da 3ª Divisão Nacional que pudesse ser para mim uma rampa para os campeonatos profissionais. Mas sem ajudas e sem um empresário estava por minha conta e, em todas as portas a que fui bater, tive as mesmas respostas. Sou defesa central, que é uma posição de grande responsabilidade, e todos diziam que procuravam alguém mais experiente para essa posição, além de terem os plantéis fechados e orçamentos já esgotados. Acabei por ficar sem clube no primeiro ano de sénior e acabei, através de amigos, a jogar futsal na ADISCREP, onde aprendi imenso e de onde transportei muita coisa boa para o futebol de 11, e jogava simultaneamente no campeonato amador de Penafiel no Rans, também pela insistência de um amigo em me levar para um treino e lá acabei por continuar até ao fim da época. Foi um ano diferente, mas espetacular, tínhamos uma excelente equipa no futsal e no Rans, ainda ganhei a Taça Agrival e um montão de amizades que guardarei com muito carinho para o resto da vida. Mas não era o que eu queria para mim. Obviamente o meu nome era falado pela comunidade do futebol amador e chegou ao treinador do Rio de Moinhos, que preparava a equipa para a época seguinte. O mister Miguel Bessa já me conhecia da formação do Penafiel, apesar de nunca ter sido meu treinador. Foi ele que me estendeu a mão e me abriu caminho para o clube e sou-lhe muito grato por isso e por ter confiado em mim e nas minhas capacidades. Conversou comigo, demonstrou o seu interesse em contar comigo e, passado umas semanas, recebo uma chamada de alguém a tratar-me por “pixote”. Só havia uma pessoa que me tinha tratado por esse nome e era o Sr. Silva, que tinha sido diretor da formação do Penafiel durante muitos anos e eu nem tão pouco sabia que era presidente de um clube. Dez minutos ao telefone chegaram para fechar o acordo. Foi assim que tudo começou.

Quando chegaste a este clube, passaste por um momento infeliz na tua carreira desportiva, uma vez que a equipa, na altura, desceu à 2ª Divisão Distrital. Quando olhamos em retrospetiva para essa altura, e verificamos o nível da equipa atualmente, que clube era o Rio de Moinhos no início da década anterior, e o que era necessário fazer para melhorar o projeto desportivo do clube?

Quando cheguei ao Rio de Moinhos percebi que estava a ser feita uma mudança de trajetória muito grande no clube. Percebi que alguns dos jogadores que tinham sido preponderantes nos últimos anos tinham saído por consequência, não só, mas principalmente pela redução orçamental abrupta. Digamos que foi o ano zero deste projeto, até porque o presidente tinha chegado no ano anterior. A organização do clube não era a mesma, as condições de trabalho eram limitadas, o balneário num período mais sensível, bem, na verdade não sei explicar, porque na minha opinião tínhamos qualidade no plantel mais que suficiente para conseguirmos a manutenção. A primeira volta foi terrível. Conquistámos nove pontos com os dois primeiros treinadores até que chega o mister Salvador Rocha, que consegue mudar o nosso chipe e fazemos 20 pontos na segunda volta e 29 no total. Descemos por um ponto. Então, nesse momento começa realmente este projeto firme e adaptado à capacidade orçamental do clube. Aos poucos foram sendo feitos ajustes no plantel à volta daqueles que o presidente achava que seriam durante anos a espinha dorsal do plantel, tanto pela sua qualidade como jogadores, mas principalmente, como homens de valores morais intocáveis que fossem capazes de o transmitir para todos os elementos da equipa. Aí começou a construção daquilo que somos hoje. Temos um balneário fortíssimo que não é fácil encontrar noutros sítios. Obviamente, a evolução ao nível das infraestruturas e mesmo da estrutura diretiva do clube viriam a ser de extrema importância para hoje sermos o que somos e o clube esteja sempre mais próximo, dentro dos possíveis, da perfeição, sendo claro que está muito longe ainda como é óbvio.

Depois do já referido interregno em Lousada, em 2014/15, regressas ao Rio de Moinhos em 2015/16, e por lá ficaste até agora. Que razões explicam este retorno ao clube, e que motivações estiveram na base dessa decisão de voltar a envergar essa camisola?

Olha, às vezes necessitamos de sair de casa para percebermos a falta que a mãe nos faz. As três primeiras épocas foram de uma intensidade brutal do ponto de vista emocional. No primeiro ano descemos, no segundo subimos e no terceiro conseguimos a manutenção com uma vitória no último jogo da época. Com toda aquela azáfama, nem te apercebes, mas vais criando laços muitos fortes não só no balneário, mas também com todas as pessoas que nos rodeiam e tudo fazem nos seus cargos para todos juntos, atingirmos os objetivos propostos no início de cada época. Eu fui muito bem recebido e sempre muito acarinhado no clube e não só. As pessoas da terra sempre foram incríveis comigo ao ponto de hoje me sentir quase um riodemoinhense. As pessoas da terra, se gostarem de ti, são tuas amigas para a vida, mesmo que deixem de te ver durante alguns anos. Portanto, foi mesmo isso, apesar de ter as minhas ambições enquanto futebolista, que ainda tenho, o meu coração sempre esteve em Rio de Moinhos durante esse ano que joguei noutro clube. Havendo a possibilidade e o convite para regressar, não tive como recusar.

Um dos aspetos mais visíveis do crescimento do clube tem sido a melhoria das infraestruturas da coletividade ao longo dos anos, ilustradas numa melhoria global das condições do recinto desportivo. Em que medida todas estas transformações vieram contribuir para a evolução da equipa, e até criaram condições para atrair jogadores mais competitivos, por força da qualidade das condições de trabalho?

Creio que é consensual o facto dessas melhorias terem tido um significativo contributo no crescimento do clube por um todo e não só no futebol sénior. Os escalões de formação por exemplo, contam hoje com um número de jovens bastante superior e não tenho dúvidas que o relvado sintético e a remodelação dos balneários foram preponderantes e mais atrativos para os jovens e seus encarregados de educação. O futebol sénior não é exceção e parece-me óbvio que hoje em dia, o Rio de Moinhos é um clube mais apetecível, não só pela fama que tem de ser cumpridor nos seus compromissos com os jogadores, mas também pelas condições que consegue proporcionar aos seus atletas, condições essas bem diferentes de há nove anos atrás quando cheguei. Os sócios também já têm outro conforto nas bancadas, e essa evolução é fruto de um excelente trabalho de grande persistência e resiliência do nosso presidente.

Um dos aspetos que salta à vista na equipa é a presença de vários atletas com um período longo de ligação ao clube. Qual a importância de toda esta experiência para a equipa, e que explicação podemos encontrar para o facto de diversos jogadores permanecerem ligados ao clube por vários anos?

É verdade, já não há muitos jogadores com oito ou mais anos de ligação ao clube como eu. Por um ou outro motivo, vão saíndo, mas há outros a construir a sua história no clube há vários anos. É algo propício a acontecer quando tens um clube feito de pessoas que sabem receber e tudo fazem para que te sintas em casa desde o primeiro dia. Começando por cada elemento que constitui a direção, que costumo chamar de “andar de cima”, até às pessoas da rouparia que tanto nos aturam. Há um conjunto de pessoas que são do mais humilde e prestável que pode existir que, não recebendo um tostão, lá estão diariamente a trabalhar e sempre abertos e dispostos a ouvir os nossos problemas, reclamações, brincadeiras, e que acabam por te conquistar por isso mesmo. Dentro do balneário, que é o espaço sagrado dos jogadores, acontece o mesmo. Nós, que estamos há mais tempo no clube, tentamos receber todos da melhor forma, sempre com o objetivo de que se adaptem o mais rápido possível à nossa realidade e se sintam perfeitamente integrados e o mais à vontade possível desde o primeiro dia. Somos uma verdadeira família em todos os momentos, principalmente nos menos bons, porque nos bons todas as famílias se dão muito bem. Temos a sorte de ter um grupo de trabalho espetacular, mas que é fruto de muito trabalho e dedicação também dos mais velhos fora das quatro linhas. O facto de termos alguns jogadores juntos há vários anos, tem ajudado também a manter o nível dentro do campo porque já nos conhecemos muito bem. E depois, importantíssimo, é o facto do Rio de Moinhos ser um clube cumpridor e nunca falhar com aquilo que são os compromissos assumidos com cada jogador no início de cada época. Há um enorme conjunto de fatores que, conjugados, são sem dúvida importantes para o sucesso.

Também se observa que há muitos jovens a integrar o plantel principal. Que garantias de qualidade dão estes jogadores ao futuro do Rio de Moinhos?

Temos mesmo muitos jovens. Nunca fiz esta análise ao pormenor, mas creio que desde que cheguei a este clube nunca tivemos uma média de idades tão baixa. Neste momento a época terminou e não sei a constituição do plantel da próxima, mas mantendo-se a maioria, há de facto alguns jovens no plantel que têm tudo para um dia serem eles próprios as referências deste clube, isto se optarem por se manter no clube, claro. Se tal não vier a acontecer, não será pela falta de qualidade. Só têm de continuar a confiar nas suas capacidades, principalmente nos momentos em que jogam com menor regularidade, e trabalhar cada vez mais. Mesmo que joguem menos agora, se forem trabalhadores, souberem escutar quem os quer ajudar e seguirem os melhores exemplos que têm no balneário estarão sempre mais próximos da regularidade que tanto desejam e isso acontecerá mais tarde ou mais cedo sem dúvida. Só têm de demonstrar que realmente estão lá com objetivos bem definidos e nunca se acomodarem, porque é sempre possível fazer mais e melhor. É uma questão de lhes ser incutida a mentalidade certa e eles estarem recetivos a isso mesmo. Hoje em dia, os mais jovens são um pouco diferentes e muitas vezes acham que já sabem tudo, mas mais tarde vão perceber que estavam errados e afinal não sabiam nada. Mas como disse, não falta cá qualidade e se souberem manter-se no caminho certo, acredito que dão todas as garantias e que alguns deles serão mesmo a cara do clube num futuro próximo.

És um dos jogadores com mais anos de equipa principal no plantel. Quais as implicações desse estatuto, e em que medida tal reforça o teu vínculo a este clube?

Ser um exemplo no que diz respeito à forma de estar no futebol é a principal implicação desse estatuto. Compromisso com o clube, responsabilidade e rigor nas mais pequenas coisas, que todas juntas se tornam muito grandes. Teríamos muito para falar acerca desta questão. Eu quando cheguei ao clube há nove anos atrás e daí em diante, sempre segui os mais velhos, não todos, mas aqueles que eu acreditava que percebiam mais do mundo do futebol a todos os níveis por toda a experiência que tinham vivido, pelos bons conselhos e bons valores que me transmitiam, pelo rigor que essas pessoas mostravam em tudo o que faziam no clube. Muitas horas tenho de conversa com essas pessoas e uma em especial que sempre admirei muito no papel que sempre desempenhou no clube. Hoje em dia, apesar de ainda ter os meus 28 anos, sinto eu a responsabilidade de envergar esse papel e de, naturalmente, transmitir esses mesmos valores e mais alguns a todo o grupo. Na verdade, sempre achei que tinha perfil para ser um dos líderes do grupo e apesar de não o transmitir sempre foi uma coisa que eu ambicionava. Sinto-me cada vez mais confortável e confiante no desenvolvimento dessa função de enorme responsabilidade e que de fácil não tem muito, aliás, muitas dores de cabeça nos dá porque ser capitão, ou segundo capitão no meu caso, não significa só envergar uma braçadeira ao domingo. A maioria das pessoas, e acredito que até mesmo alguns colegas de balneário, não imaginam sequer o trabalho invisível que é feito por nós para que tudo decorra da forma mais tranquila possível. É nosso dever de capitães fazer de tudo para que a equipa se mantenha no caminho certo. Temos de ser o mais exemplares possível em tudo o que fazemos. Portanto, por tudo isto e mais alguma coisa se percebe o meu compromisso com o clube, as pessoas do clube, sócios e gentes da vila de Rio de Moinhos porque o clube é uma bandeira da terra.

Qual o significado que o Rio de Moinhos tem para ti enquanto desportista?

Como sabes, o Rio de Moinhos não é um clube profissional. Apesar disso, tentamos sempre sê-lo o mais possível no nosso dia a dia. O próprio clube faz os possíveis para que, no final de um dia de trabalho, tenhamos todas as condições minimamente necessárias para trabalharmos naquilo que mais gostamos na vida. Sim, porque olho para o futebol como um trabalho, mas um trabalho que me dá o maior prazer do mundo e o Rio de Moinhos é o clube que me acolhe há largos anos, que me acarinha e me permite manter alguns objetivos pessoais bem presentes e acreditar que são possíveis de alcançar um dia. Só posso agradecer por isso. Se hoje jogo futebol, ainda que não seja a um nível que sempre idealizei, devo-o muito a este clube e às suas pessoas, sem dúvida.

Falemos agora do teu percurso na sua generalidade, que começou no Penafiel. Que recordações guardas de uma primeira fase em que representaste o clube, e que culminou com a tua chegada à seleção da AF Porto da tua categoria?

Focando-nos apenas no meu percurso nos escalões de formação, posso dizer que esse foi o período mais feliz da minha vida futebolística. Estamos a falar de um período entre os meus 7 e os 15 anos de idade onde aprendes tudo naturalmente (tive excelentes treinadores), com calma, sem pressão de resultados e sem te aperceberes de tudo o que de mau se passa fora das quatro linhas. Guardo no meu coração cada diretor, cada treinador, cada colega, muitos momentos de todo o tipo que podes imaginar e aprendizagens que sem dúvida fazem muito do homem que sou hoje. Sim, porque ali formavam-se homens naquela altura. Atualmente, não sei como está. Portanto, agradeço todo o carinho assim como toda a disciplina incutida que certamente me fizeram ser muito melhor. Os valores que me transmitiam diariamente ficarão para sempre comigo, assim como todos os amigos que lá fiz. Vários anos de muita aprendizagem com excelentes treinadores como o Sr Manuel Potinho, Prof. Pestana, Prof. Nuno Bessa, Prof. Celso, culminaram na minha melhor época que foi o segundo ano de iniciados, nas mãos do Alberto Moura que muito me marcou e ainda hoje sinto saudades de ser treinado por ele. É nesse ano que começo a ser chamado regularmente aos treinos da seleção da AF Porto e acabo mesmo por ser convocado para o Torneio Lopes da Silva, que é o mais importante torneio interassociações realizado no Jamor. Naquele ano foram convocados apenas jogadores do FC Porto e do Boavista que eram os dois maiores clubes do Norte naquela altura, e havia um forasteiro ali no meio, dos quadros do FC Penafiel, que era o Cristiano Novais. Foi um ano brilhante. Nesse torneio fiz um jogo a titular, e fui suplente utilizado noutros dois, sendo que num deles foi a final contra a seleção de Lisboa, em que comecei a aquecer a meio da primeira parte e entrei apenas nos descontos. No fim o treinador, que era o António Oliveira, veio pedir desculpa. Penso que não cheguei a tocar na bola, mas posso dizer que tive o prazer de pisar o relvado e disputar um jogo oficial no mítico Estádio do Jamor. O resultado é que não foi o melhor. Perdemos essa final por 6-1, fomos arrasados por um «hat-trick» do Mário Rui, que hoje é um dos convocados na nossa seleção nacional.

Em 2006/07, tens a possibilidade de representar o FC Porto, e por lá ficas durante época e meia, primeiro cumprindo uma temporada no «satélite» Padroense, e depois chegando à primeira equipa, onde estiveste sensivelmente meia época. Que recordações guardas deste teu trajeto, em que representaste o clube do teu coração?

É verdade. Deixa-me contar como soube da possibilidade de assinar pelo F.C. Porto. Os meus pais sabiam de tudo há algum tempo, mas não me podiam dizer para que não prejudicasse o resto da época no Penafiel. No final de época, um dia que chego das aulas penso eu, os meus pais perguntam se eu gostava de ir para o F.C Porto, Benfica ou Sporting, e qual é que preferia. Achei estranho perguntarem assim aquilo sem qualquer contexto mas, como bom portista que sou, prontamente respondi que gostava de ir para o F.C. Porto, claro. Nesse momento o meu pai diz-me “então vamos tirar fotografias e fotocópias do teu BI que amanhã vamos ao Estádio do Dragão para assinares contrato”. Não acreditei, mas no dia seguinte viveria o início do sonho de qualquer menino. Tenho recordações lindas desse ano e meio. No Padroense comecei por não ser opção logo no imediato, até porque a minha inscrição foi tardia porque o Penafiel dificultou a minha saída. Lembro-me que perdi cerca de um mês de competição. Cheguei mesmo a jogar na equipa B do Padroense, que era a equipa mesmo do clube e não a do F.C Porto, para ganhar minutos de jogo e com o desenrolar do campeonato fui, aos poucos, começando a jogar mais vezes e durante mais tempo até que acabei mesmo a titular na segunda fase do campeonato nacional de Juvenis. Lutei, trabalhei e evoluí muito e acabei por ganhar o meu espaço na equipa titular. Na segunda época mudou o treinador e para esse senhor eu nunca contei. Ele tinha sido campeão de iniciados no ano anterior, tinha os jogadores dele desse ano que eram da sua confiança e dificultou-me muito a vida a mim e a outros meus colegas de segundo ano. Mas guardo memórias incríveis – as viagens tanto na carrinha que nos vinha buscar e trazer como com o Caetano e o Jefferson que viviam em Paredes e me traziam imensas vezes para não chegar tão tarde a casa; o período em que todos estudámos juntos no mesmo colégio, como deves imaginar, era palhaçada a todo o minuto; as incríveis condições de trabalho, até cuecas nos davam para treinar e eu no Penafiel estava habituado a levar a roupa para lavar em casa – eu usava brinco e era proibido usar no centro de estágio, mas eu deixava estar até chegar à rouparia para enervar o nosso roupeiro – a malta ria-se, mas quem pagava depois a multa por andar de brinco lá dentro era eu; vermelho na roupa ou nas chuteiras nem pensar, aliás só podiam ser pretas, brancas ou azuis, mas se fossem pretas melhor; o convívio que acabávamos por ter com a equipa sénior porque treinávamos de manhã e praticamente à mesma hora que eles e cruzávamo-nos no parque de estacionamento; a primeira vez que recebi um ordenado no futebol; a mentalidade vencedora que era impressionante; o golo da vitória que fiz contra o Atlético de Madrid num torneio na Corunha; as matreirices que fazíamos nos hotéis quando dormíamos fora nas vésperas de jogo, bem, tanta coisa boa para recordar… mas devo dizer que há depois outro lado num patamar destes que não é de todo um mar de rosas, bem pelo contrário.

Para todos os que sonham envergar a camisola de um «grande», qual é a realidade que se encontra em clubes como o FC Porto, e o que é preciso ter para singrar a esse nível?

Olha, eu ouvia dizer que difícil não é chegar ao topo, difícil é manter-nos lá. Eu confirmo, não é mesmo para qualquer um. Há um choque muito grande quando sais de um clube humilde como o Penafiel e chegas a uma realidade daquelas. Estás no topo, acima daquilo não há nada. Só os melhores podem lá estar e percebes a exigência logo no primeiro treino. Ao mesmo tempo vives ali o sonho de qualquer menino e ficas deslumbrado com tudo o que te rodeia porque não estavas habituado a ter nem metade das condições bem como nem metade dos tratamentos que te são dados. Fazem de tudo para que tenhas só de pensar em treinar e jogar, não deixam que te falte nada. Depois olhas para o lado e vês os jogadores de quem falavas com os teus amigos e admiravas pelo que vias deles quando jogavas contra eles. Agora estás do lado deles, mas todos na mesma luta, pelo sonho de uma vida. Num sítio como este, apesar de ter apanhado grupos de trabalho excelentes e de grande camaradagem, existe uma enorme competição entre nós na luta por um lugar nas opções do treinador. Não podes adormecer um segundo e tens de te habituar a ir buscar forças a todo o lado para te superares dia após dia se não quiseres perder o comboio. Foi quando percebi o porquê de achar que eles corriam muito quando tínhamos jogado contra eles. A intensidade de treino era bastante superior à dos jogos. Nem todos, mas havia jogos que pareciam treinos de posse de bola e que conseguíamos fazer tudo e mais alguma coisa, tal era a diferença de qualidade e de ritmo. Por isso, para singrares a este nível além das qualidades físicas, técnicas ou táticas, tens de ser mentalmente mais forte que os outros. Na minha opinião é isso que num patamar daqueles vai acabar por diferenciar um jogador nos momentos mais cruciais. Depois, existem coisas que infelizmente também pertencem ao futebol e que tu não podes controlar. Eu, por exemplo, cheguei ao F.C. Porto por via de um olheiro que era o Sr. Craveiro que, pelos vistos, me seguia há alguns anos, e por lá fiquei algum tempo e nunca tive empresário nem qualquer acompanhamento profissional. Isso conta muito, teres alguém que interceda por ti e te possa aconselhar quando dentro de campo todos estão em patamares tão idênticos a todos os níveis. Mas a força mental é mesmo o que eu acredito ser o mais importante para que tenhas possibilidades de singrar a um nível tão alto e de tal exigência.

Quais os atletas e técnicos que mais te marcaram durante o tempo em que estiveste no FC Porto, e em que aspetos mais te fizeram evoluir como desportista e como homem?

Treinadores, tenho de falar em três nomes. O mister Rui Gomes, que foi o treinador no meu primeiro ano, por todo o conhecimento que tinha e ao qual eu não estava habituado. Impressionou-me muito pelos métodos de trabalho e pela forma como lidava comigo. Era incrível na preparação do jogo e antes de começar já sabíamos tudo o que o adversário ia fazer. Depois porque soube gerir muito bem a minha chegada ao clube integrando-me como opção mais regular de forma gradual à medida que me sentia preparado para cumprir com as ideias dele. Acabei esse ano cheio de confiança e a sonhar com a chamada à seleção nacional que sabia estar perto. O Paulinho Santos, que é um ícone do clube e tinha sempre uma história, um ensinamento, um conselho para te dar e uma boa disposição contagiante. E depois, o Pepijn Lijders, que era o treinador de técnica individual e estava connosco uma vez por semana. Fazia um trabalho impressionante e contribuía imenso para a nossa evolução, colocava a nossa confiança altíssima e preparava-nos para chegar ao jogo e não termos medo de arriscar qualquer gesto técnico mais complexo, como rematar com o pé não dominante ou fazer um pontapé de bicicleta. Hoje é adjunto do Klopp e isso fala por si.

Atletas, todos me marcaram de alguma forma, mas tenho de destacar o Rui Caetano, pelo exemplo que era, desde a sua vida particular até ao jogo, cumpria tudo ao pormenor. O Ramón Arcas, que é o meu espanhol preferido, pela excelente pessoa que era e por ter sempre uma palavra de conforto em toda a hora menos boa, e por fim, os dois que mais me impressionaram por toda a qualidade que tinham que era realmente fora do normal, eram especiais. São o Diogo Jerónimo, que me é muito querido ainda hoje, e o Alex Freitas. Tinham uma qualidade que só visto mesmo.

Num sítio onde só trabalhas com os melhores treinadores e jogadores, tens sempre muito a aprender e para crescer. Lá, tens de andar na linha, não podes facilitar porque se facilitas és punido, se chegas atrasado um minuto, és punido. Aprendes o que é realmente o futebol profissional para o bem e para o mal. És obrigado a crescer futebolisticamente, mas muito também como homem.

 

Optaste por regressar, ainda júnior, ao Penafiel, onde cumpriste o resto da tua formação. Quando olhas em retrospetiva, até que ponto te arrependes dessa decisão quando olhas para trás, e farias diferente se tivesses oportunidade?

Esse é o ponto mais sensível que podias ter tocado. Tinha outra opção e alguém que me queria colocar noutro clube, assim que rescindi com o F.C. Porto, mas naquele momento queria tanto voltar para o Penafiel e jogar regularmente para tentar chegar à seleção nacional que rejeitaria qualquer outra proposta. E assim foi. Regressei ainda juvenil em janeiro, voltei a jogar com frequência e tenho na memória ainda o golo que marquei na vitória por 1-0 contra o Braga que nos deu acesso à segunda fase do campeonato nacional. Segunda fase essa, em que o clube me castiga de forma surpreendente por faltar a um treino com a devida autorização do treinador, repito, com a devida autorização do treinador, num dia em que tinha um jantar de celebração dos 80 anos da minha avó materna. Durante esse castigo, num jogo em casa, eu e alguns colegas iríamos ser observados pelo treinador da seleção nacional de sub 17. Há coisas que ainda hoje me revoltam quando penso nelas. O clube já não era o mesmo que eu tinha deixado há dois anos. No final desse ano surgiu a oportunidade de ir jogar para Braga, inicialmente no Merelinense e com perspetivas de terminar a minha formação no S.C. Braga no último ano de juniores, e aí já iria contar com o apoio de um empresário. Já estava a viver em Braga há um mês e a fazer a pré-época com o novo clube quando, mais uma vez, o Penafiel complica a minha saída. Acabaram a prometer tudo e mais alguma coisa, os meus pais obviamente preferiam que eu ficasse em casa do que fosse viver com dois colegas da mesma idade e mudasse novamente de escola, e acabei por ceder e ficar no Penafiel. Obviamente, o empresário nunca mais me falou sequer. No último ano de juniores treino regularmente com a equipa sénior, mas acaba a época e não houve uma única pessoa do clube que me desse uma palavra. Nem o sim, nem o não. Foi como se eu não existisse, depois de tantos anos no clube. Alimentaram-me um sonho que não podiam concretizar logo à partida. Depois disto, acho que todos percebem o meu arrependimento por ter voltado e é mesmo isso que eu faria de diferente com toda a certeza, nunca teria regressado onde havia sido tão feliz anteriormente. Apesar disso devo dizer que estimo cada pessoa do clube com quem tive a oportunidade de trabalhar.

Foste um dos excelentes jogadores jovens centrais da tua geração, e tiveste a oportunidade de conviver de perto com condições de trabalho de excelência, bem como num contexto de futebol distrital. Em que medida esta disparidade de condições em que trabalhaste podem, na verdade, ter proporcionado uma experiência futebolística enriquecedora, que te pode ajudar caso venhas a dar continuidade à tua ligação ao futebol, após deixares de ser jogador?

Fazendo um breve resumo, passei então toda a minha formação desde os iniciados a disputar os campeonatos nacionais de todos os escalões, fosse no F.C. Porto que é de excelência, ou no Penafiel que também nos proporcionava boas condições. Enquanto sénior passei pela ADISCREP no futsal federado, no Rans que disputa o campeonato amador de Penafiel, nos distritais da AF Porto em três divisões diferentes com o Rio de Moinhos e Lousada. É fácil de perceber que convivi com realidades díspares e obviamente aquilo que sou hoje é o resultado de todo esse percurso que foi extremamente enriquecedor a todos os níveis. Posso dizer que aprendi imenso no F.C. Porto, mas também aprendi no Rans e mesmo no futsal, que não é onde pertenço, tive uma fantástica experiência. Apesar de não ter o fim de carreira programado, porque ainda quero jogar durante muitos anos, se quando esse dia chegar eu decidir continuar ligado ao futebol, tenho a certeza de que tudo o que eu vivi e ainda tenho para viver como jogador me ajudará imenso no desempenho das minhas funções, sejam elas quais forem. Terei sempre todo o gosto em partilhar todas as vivências, conhecimento e essa experiência, principalmente com os mais novos, de forma a contribuir para que sejam melhores homens e jogadores.

Prestes a completar 29 anos de idade, é expectável que tenhas alguns anos como jogador pela frente. Que objetivos ainda gostarias de atingir para os próximos anos dentro de campo?

Talvez pareça mais velho ao dizer isto, mas neste momento o que mais prazer me dá, além de jogar, é chatear os mais novos, porque os chateio mesmo se for preciso, para que evoluam e sejam melhores a cada dia que passa. Olhando um pouco mais para o meu umbigo, obviamente penso em jogar em divisões acima. Se me mantiver pelo Rio de Moinhos gostava mesmo que o clube desse esse passo muito em breve, mas sei que não será fácil. Continuarei a desfrutar do futebol que é o que me faz verdadeiramente feliz e logo se vê o que o futuro tem reservado para mim. Permite-me só enviar um grande abraço para todos os amigos que o futebol me deu, que são muitos, e deixar também uma mensagem de força a todos os penafidelenses neste momento delicado que o mundo atravessa. Obrigado também a ti e à Penafiel Magazine pelo convite. Foi um enorme gosto partilhar a minha história. Até uma próxima.