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“É CLARO QUE O INVESTIMENTO EM SAÚDE E INVESTIGAÇÃO VAI AUMENTAR” , PEDRO FERREIRA

Numa altura em que parecem proliferar, nas redes sociais e espaços de opinião pública, os infeciologistas e epidemiologistas doutorados na “Universidade da Vida”, ouvir a ciência é a melhor forma de saber como resolver as grandes dificuldades e exigências do nosso tempo.

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O investigador penafidelense Pedro Ferreira, Bacharel em Engenharia Biotecnológica em 2002 e licenciado em Engenharia Biotecnológica pelo Instituto Politécnico de Bragança em 2004, doutorado em Ciências Médicas no Instituto Karolinska, em Estocolmo, na Suécia, natural de Entre-os-Rios, conquistou ainda um primeiro lugar no Programa Investigador FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia) 2015, em que sobressaiu perante mais de mil e quatrocentos candidatos. Atualmente, exerce funções como investigador principal do laboratório do Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde (ICVS)/3 B’s, da Universidade do Minho.

Na entrevista que deu ao PENAFIEL Magazine, Pedro Ferreira dá-nos uma ideia de tudo o que já se sabe sobre o SARS-Cov-2, responsável por esta pandemia, e admite que nesta fase ainda são muitas as interrogações sobre este vírus, e muito poucas as certezas.

“ Não temos um sistema de monitorização de propagação de doenças estritamente necessário para o mundo globalizado que temos. As pessoas têm o direito e o dever de demonstrar incertezas. E o sistema tem de fazer o que lhe compete, que é conquistar a confiança das pessoas. Ouvir e investir na ciência parece-me um passo acertado nesse sentido”.

Falou-se também das medidas de confinamento adotadas no país, em que o entrevistado expõe a justificação das mesmas e, sobretudo, os objetivos a que as mesmas se destinam. Neste âmbito, os diferentes dados da evolução da pandemia registados em vários países, e até em nações que adotaram posturas diversas face à pandemia, é também um assunto abordado nesta conversa.

Porém, a grande preocupação do entrevistado é a ausência de um sistema robusto de diagnóstico e monitorização em tempo real, e Pedro Ferreira sublinha mesmo ser urgente a sua implementação. Sem se alongar muito sobre temas económicos, até porque a orientação da entrevista ia noutro sentido, o investigador defende que vai ser o Estado a assumir um papel forte e decisivo na gestão dos problemas sociais e económicos que advirão deste complexo problema de saúde pública.

“Ainda sabemos muito pouco sobre este vírus. Criou-se a falsa ideia de que apenas tentamos controlar esta epidemia com medidas de isolamento baseado na sua taxa de mortalidade. Isto é uma ideia completamente errada. Este desconhecimento sobre este novo vírus é na realidade a base das medidas tomadas para reduzir e controlar o surto”, refere, realçando que “reduzir a propagação deste vírus é fundamental para reduzir cenários ainda piores do que o atual”.

“O que se sabe até ao momento é que este vírus é transmitido inicialmente pelas vias respiratórias. Isto significa que inicialmente partículas virais são inaladas e infetam células do trato respiratório. Esta fase é o que dá origem aos sintomas de tosse e dificuldades respiratórias. Contudo, a Covid-19, doença causada pelo SARS-Cov2, pode ser mais generalizada causando impacto a nível renal, intestinal e cardíaco. É por isso que pessoas com historial clinico com síndromes aparentemente não respiratórios também fazem parte do grupo de risco, como diabéticos, cardíacos, entre outros”, esclarece, realçando que “o uso de máscara, frequente lavagem das mãos, e redução do contacto físico nos cumprimentos, irá mitigar segundos picos”.

“Mas o mais importante nesta fase é a implementação de sistemas de diagnóstico e monitorização contínua. Não vejo ninguém discutir esta necessidade óbvia. No curto prazo teremos de ter sistemas de diagnósticos robustos e de «real-time». Isto é algo que no meu trabalho abordo há algum tempo, mas ao qual ninguém realmente deu valor. Espero que com esta situação o panorama mude”, defende.

E atesta: “Há décadas que cientistas e académicos alertam para a necessidade de alteramos comportamentos e implementar medidas para mitigar cataclismos tanto de saúde como de fenómenos naturais. Esta situação demonstra que os cientistas tinham razão. Não temos um sistema de monitorização de propagação de doenças estritamente necessário para o mundo globalizado que temos. As pessoas têm o direito e o dever de demonstrar incertezas. E o sistema tem de fazer o que lhe compete, que é conquistar a confiança das pessoas. Ouvir e investir na ciência parece-me um passo acertado nesse sentido”.

“Acho que é claro que o investimento em saúde e investigação vai aumentar. É claro para todos os que estávamos numa situação insustentável há muito anunciada. A nossa antiga realidade criava a ilusão de necessidades que não precisávamos. Este período de isolamento foi também de introspeção. Pelas pessoas com que tenho falado, chega-se à conclusão de que gastávamos recursos e dinheiro em coisas completamente supérfluas”, afirma, considerando que “todos percebemos a importância dos sistemas de saúde e investigação em saúde”.

“Este é um período de adaptação a uma nova realidade. Tecnologicamente pensa-se que evoluímos o equivalente a dez anos durante este período”, conclui.

 

Clique aqui e leia a entrevista completa do penafidelense Pedro Ferreira, investigador principal do laboratório do Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde (ICVS)/3 B’s, da Universidade do Minho

PEDRO FERREIRA: “É URGENTE TER SISTEMAS DE DIAGNÓSTICO E MONITORIZAÇÃO DA DOENÇA”