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A FILHA DO PAI NATAL E O UNICÓRNIO QUE PERDEU A MAGIA

Um conto de Natal algures pelo concelho de Penafiel… por Sónia Dias Pinto

 

 

Era o ano de 2020…

Uma gripe muito estranha, que punha as pessoas às pintinhas roxas e as fazia espirrar purpurinas coloridas, tinha invadido o planeta todo e tinha chegado inclusive ao Pólo Norte.

O Pai Natal, habituado a percorrer as cidades em busca das melhores prendas no comércio tradicional, encontrou o seu grande amigo Gepetto. Conversa puxa conversa sobre o seu novo trenó supersónico, acabaram por se distrair e deram um grande aperto de mão à despedida, esquecendo-se das recomendações sobre o vírus.

Grande azar! Era 24 de Dezembro e o Pai Natal enchia toda a fábrica de brinquedos de purpurinas com os seus espirros sonantes que faziam tremer todo o Pólo Norte!

– Pai Natal vais ter que ficar 15 dias de isolamento e enviar todos os teus duendes e renas para casa de quarentena, visto que já passeaste por toda a fábrica hoje e provavelmente os infetaste a todos! Mas onde raios estavas com a cabeça, homem?! – ralhou o Dr. Mateus, cansado dos disparates por esse mundo fora e admirado por o seu amigo ter caído na esparrela também.

– Mas!… Eu não posso cancelar o Natal!… Eu tenho que distribuir os presentes!… Milhões de crianças que se portaram bem vão ficar desiludidas, não pode ser!… – retorquiu o Pai Natal em pânico.

– Oh rapaz! Eu avisei-te para usares a máscara, álcool-gel e não cumprimentares ninguém. Agora, vais ter que te aguentar. E é se não quiseres passar o Natal comigo nos cuidados intensivos!… Vais ter que arranjar alguém que te substitua e de preferência que não esteja infetado. Manda-o primeiro fazer o teste comigo. – aconselhou o médico, esperando que o Pai Natal não fizesse mais nenhuma tolice.

Natalina, a filha mais nova do Pai Natal, tinha acabado de chegar a casa, depois de uma temporada fora a dar aulas quando soube do sucedido. Nem queria acreditar na catástrofe que se adivinhava com o seu pai preso em casa!…

Natalina era professora. Ensinava a disciplina de “Espirito Natalício” e era especialista em “Empatia infantil”. Era ela que com toda a paciência do mundo, ensinava duendes e renas a serem as melhores companhias do seu pai.

 

Explicava-lhes que além de vestirem o uniforme vermelho, verde e branco, tinham primeiro que sentir o amor do Natal dentro do coração. Todo o carinho, dedicação e compreensão que a época exige. Ter empatia pelas pessoas que passam o natal sozinhas e darem-lhe uma solução para uma noite mais confortável. Conseguirem perceber que brinquedo quer uma criança, mesmo quando ela não o consegue descrever na sua cartinha, usando apenas a intuição e olhando nos seus olhinhos pequeninos.

Era uma disciplina exigente, pois nem todos tinham vocação. Não bastava serem peritos a trabalhos manuais e contruírem os melhores brinquedos, muito menos serem as renas mais rápidas a educação física. Era preciso passar à disciplina dela, e isso requeria saber o significado de amor incondicional.

 

Nesse ano tinha um aluno muito especial. Pela primeira vez, um unicórnio tinha-se inscrito na escola de Ajudantes do Pai Natal. Os outros professores e inclusive o seu irmão, presidente da escola e sucessor do Pai Natal, queriam rejeitar a sua inscrição, alegando que coisa igual nunca se tinha visto no Pólo Norte!…

Natalina, a muito custo, conseguiu demover os colegas e Boneca, assim se chamava o unicórnio, foi aceite.

As primeiras semanas foram difíceis. Principalmente quando os colegas se aperceberam que além de diferente deles, o unicórnio, também era diferente dos da sua espécie. Boneca, tinha perdido a sua magia em criança e nunca mais a tinha recuperado.

Natalina reuniu a turma e ameaçou todos os alunos. Estavam ali para aprenderem o que era o Amor, a empatia e a aceitação. Não iria permitir que ninguém discriminasse a nova colega, senão iriam chumbar todos à sua disciplina. E todos os alunos sabiam que um chumbo àquela cadeira significava um chumbo no final do ano.

Chegaram as férias de Natal e Natalina soube que Boneca iria passar a temporada sozinha, pois era órfã e os tios estavam de férias para um país tropical. Convidou-a a vir à Fabrica do Natal e ali estavam as duas com aquela notícia de um Pai Natal doente.

Natalina ligou ao seu irmão. Era chegada a hora de ele tomar as rédeas da situação e pegar no trenó do pai deles.

-“Mana querida, o teu sobrinho decidiu nascer mais cedo. Estou na maternidade com a Felícia. Vais ter que fazer a comunicação oficial que o Natal este ano está cancelado.”

– CANCELADO?!?! – Nem pensar! Gritou Natalina para ela mesma. E com toda a força e determinação do mundo, esgueirou-se para a fábrica de brinquedos, carregando todos os presentes para o trenó.

Boneca, ajudou no que pôde.

– E agora professora? Como pomos o trenó a funcionar?? – Perguntou a unicórnio, preocupada.

Natalina ligou para o estábulo das renas. Do lado de lá, a péssima noticia: Só três renas estavam operacionais. Todas as outras estavam doentes.

– Boneca, vais comigo! Sei que apesar de não teres magia, tens todo o amor dentro de ti. Confia em ti como eu confio. Vamos salvar o Natal!…. – Determinada, Natalina saiu do Pólo Norte com o trenó carregadinho. Com custo, lá conseguiram levantar voo.

Após algumas horas, o cansaço começou a sentir-se. A carga era muita e as renas eram poucas. O trenó começou a perder altitude quando iam a passar por uma terra muito bonita, chamada de Penafiel. Pararam numa Serra virada ao rio Douro a tentar recuperar energias.

Enquanto Natalina chorava preocupada, Boneca começou a lembrar-se das aulas de história. Penafiel era terra de antigos guerreiros. De gente fiel aos seus princípios. De gente apaixonada pelas tradições, de alma pura e simpática. Pensou naquelas crianças penafidelenses desiludidas por não encontrarem o seu presente de manhã ao acordar. Começou a sentir um formigueiro nos pés. Uma energia que tomou conta dela totalmente. E finalmente percebeu o que lhe tinha acontecido: A sua magia tinha voltado!…

Felizes pelo acontecimento, Natalina e Boneca levantaram voo a todo o vapor, só parando de madrugada quando o último presente fora distribuído.

Diz-se pelos lados de Canelas, que a sua maior serra, se chama de Boneca em honra ao unicórnio que ali descansou e descobriu o amor e a Magia dentro de si e salvou o Natal. Fez-se ali também um baloiço para que as pessoas também ali possam descansar e descobrir a magia dentro de si enquanto apreciam a beleza de Penafiel e o rio Douro a seus pés….